junho 03, 2005
No quarto, sentado, num cadeirão velho de veludo gasto e esverdeado, Tiago, amorfo, já só mantém do antigamente a tez bem morena que lhe ficou por herança. Tudo o resto são memórias e rugas finas, indeléveis. Deixa-se ficar parado no tempo porque lhe facilita o presente. Em determinadas circunstâncias até sorri, ainda que ninguém o veja. Um sorriso trocista, irónico. Volta a ser o menino que corria pela imensa praia de águas quentes, atrás de caranguejos que nunca conseguiria agarrar. Fica a sorrir. Os caranguejos ludibriavam-no, fugiam-lhe ali mesmo à beira mar ainda que ele se sentisse um reizinho naquela imensidão toda.
Tinha sido um miúdo feliz, feito para aquela terra que também era feita à sua medida. Haveria de saber o que era ser-se desterrado. De Angola só conheceu Luanda, porque já lá estava quando abriu os olhos a sério. O Lobito, onde nasceu, ficara para trás. Mantinha-se apenas nos álbuns de fotografias da família. Quando os revê - o que agora é raro - até nas fotos a preto e branco consegue sentir na pele toda a luminosidade quente que Luanda ainda hoje emana. Uma luz especial que tudo recorta, como se se fotografasse sempre em sobre exposição. Depois o sorriso morre. Basta um som da televisão ou lá de dentro, do resto da casa, e retorna a uma melancolia quase estudada.
No passado cometeu alguns erros irreparáveis - sim, de alguns ainda se recorda - que prefere esconder debaixo daquela apatia para a qual suga como se fosse um redemoinho todos os que entram no quarto – e por isso na maioria das vezes já ninguém lá vai. Até porque de cada vez que ouve o seu nome na outra ponta da casa prefere ser ele a ir rapidamente, demasiado até para alguém que se mantém horas a fio aparentemente imóvel no cadeirão. E isso tranquilizava-os; podem varrê-lo novamente do presente para o quarto dele. E ele volta, volta sempre para as suas águas mornas do mar de Luanda, volta para o cadeirão velho, volta para um passado quase igual a uma rede de pesca por remendar, mas que é o dele.
Sabe no entanto do “acidente” - como lhe chama - um atropelamento com fuga que o deixou com uma amnésia parcial que se recusa a regredir. E o cadeirão velho transforma-se ainda mais num local estafado de auto-análise, uma tentativa desesperada da mente resgatar um passado que teima em ocultar-se. Ainda assim, nunca se detém no motivo do “acidente”, deixa-o à deriva no passado. Quando o puzzle estiver completo - se alguma vez estiver - talvez o compreenda.
O carro saíra do nada e pelo ruído pressentira uma raiva que não combinava com o calor húmido contra o qual avançava devagar, com passadas pesadas. Fora do quarto, em voz baixa, as suposições tinham-se feito sentir, mas apenas em tempos, quando a casa era outra, o quarto era outro, e a terra ainda era Luanda. Depois ele próprio começara a ficar gasto e longínquo e acabara por se tornar desinteressante até para as poucas pessoas que ainda por ali deambulavam e lhe tinham conhecido partes do passado. Mais uma vez a transparência resvalava para a total invisibilidade como um vidro acabado de polir.
Só uma pessoa lhe poderia contar partes desse passado sem que ele duvidasse, mas nunca mais a procurara.
Apeteceu-me*...
No quarto, sentado, num cadeirão velho de veludo gasto e esverdea- do, Tiago, amorfo, já só mantém do antigamente a tez bem morena que lhe ficou por herança.
Tudo o resto são memórias e rugas finas, indeléveis. Deixa-se ficar parado no tempo porque lhe facilita o presente. Em determinadas circunstâncias até sorri, ainda que ninguém o veja. Um sorriso trocista, irónico. Volta a ser o menino que corria pela imensa praia de águas quentes, atrás de caranguejos que nunca conseguiria agarrar. Fica a sorrir. Os caranguejos ludibriavam-no, fugiam-lhe ali mesmo à beira mar ainda que ele se sentisse um reizinho naquela imensidão toda. Tinha sido um miúdo feliz, feito para aquela terra que também era feita à sua medida. Haveria de saber o que era ser-se desterrado. De Angola só conheceu Luanda, porque já lá estava quando abriu os olhos a sério. (para continuar a ler clique aqui)
*Aceitar o desafio...
maio 13, 2008
Devia ter uns quatro para cinco anos e vivia naquele lugar fantástico que para mim era Luanda. Era uma criança intensamente feliz e muito irrequieta. Nesses tempos o sol brilhava sempre, quer no horizonte quer na minha forma de ver o mundo. Saltava da cama pronta para aproveitar tudo o que pudesse da vida e olhava à volta e tudo era simples, descomplicado e brincava num jardim, no meu jardim. Muitas flores, uma bela Palmeira, em forma de Palmier e que nunca esquecerei, uma imensa árvore nas traseiras da casa e um baloiço em ferro, enorme, para o meu olhar de menina pequena.Só uma coisa me arreliava. O meu triciclo. Eu queria era uma bicicleta. Não sei quando foi que vi pela primeira vez uma bicicleta mas a verdade é não me saía da cabeça tal brinquedo. Por isso nunca me esquecerei do truque que inventei para assemelhar o meu triciclo a uma bicicleta: um baldinho de praia, virado, em cima do banco do triciclo. Não era nada cómodo mas eu girava pelo jardim fazendo de conta que já tinha a "minha bicicleta".
Ainda consigo ver-me, como se estivesse de fora a observar-me, uma criança feliz a perseguir um dos seus primeiros sonhos…
Obrigada Amigo Eremit@, que ao me ofereceres esta bicicleta me fizeste recordar...
maio 02, 2008
Mais um passatempo na nossa blogosfera, este foi-me enviado pelo Miguel. Em alguns casos, para responder, utilizei a livre associação de ideias freudiana. E convido desde já duas pessoas: o Eremit@ e a TMara que sei que darão boa continuidade ao jogo.
Família - Sangue
Homem - é de Marte
Mulher - é de Vénus
Sorriso - Gosto quando me dizem que é bonito…
Perfume - Flower by Kenzo
Carro - Twingo (apesar de não ter carta tenho saudades dele)
Paixão - Escrita
Amor - Quero acreditar que existe
Olhos - Castanho avelã (quando se deixam seduzir por um raio de sol)
Sal - "A princesa e o sal" (de Teófilo Braga, Contos Tradicionais)
Chuva - Recorda-me o Outono e a voz da minha mãe
Mar - Uma outra paixão
Livro - “Fazes-me Falta” (de Inês Pedroso)
Filmes - Entre muitos, "O Piano"
Músicas - Tantas... e a banda sonora d”O Piano” (do pianista e compositor britânico Michael Nyman)
Dinheiro - Descobri que mesmo não sendo tudo...
Silêncio - Ver a paisagem que passa num silêncio agradável...
Solidão - Uma dor no centro do peito, um sem-abrigo invisível…
Flor - Rosas, Orquídeas (e todas as fotografadas com bebés pela Anne Geddes)
Sonhos - Nunca abdicarei deles
Cidade - Lisboa onde nasci, Sintra como paixão
País - Saudades de Luanda
Não viver sem - Esperança
Nunca deixar de ser - Franca
Qualidades - Tento ser tolerante, frontal, verdadeira
Defeitos - Teimosia, impulsividade
Gostos - Adoro cinema, pipocas, livros, chocolates, pastéis de Belém, gatos, sorrisos…
Não passarei - Duas palavras que juntas me assustam…
Detestas - Maldade, mesquinhez. O sofrimento do ser humano.
Pessoa - Era criança ainda e o “mostrengo” de Fernando Pessoa, fascinava-me, entre uma qualquer imagem do “papão” e a sonoridade do que ouvia.


Um Anjo para me guardar,
