dezembro 28, 2005

A noite depressa imitou uma noite igual a qualquer outra. Todos os gatos passaram a ser pardos, surgindo silenciosamente nas vielas. Raros miados trespassam a escuridão morrendo suavemente nas sombras ainda mais negras dos becos.
As passadas cadenciadas não diferem do bater de um coração, e apenas o empedrado da calçada ressoa sob as solas gastas. A sombra, geminação incessante do ser, avança de cabeça pendente a destoar do andar aristocrata de quem atravessa o salão nobre de um palacete.

Caminhava, há mais de uma hora, nas trevas profundas, procurando confundir-se com as paredes ressequidas pela fuligem do tempo. Pressentia os interiores dos prédios, vencidos pelo abandono. Abrandou, tacteando uma das paredes dos primórdios da cidade, como se com a sua mão conseguisse auscultar o íntimo decadente dos quartos e dos que os habitam, ignorados e transformados há muito nos "sem abrigo com tecto". Adivinha o medo disfarçado de vazio dos que já viveram. E pensa nos que se esconderam há pouco em vãos de escada e recantos abandonados, fugindo do frio e da chuva que escorre sem medo pela face dos que nesse dia
beberam demais e vomitaram as entranhas a coberto de uma juventude cíclica ou de um vício sem retorno. E a desculpa fugaz de hoje foi o fogo de artifício que assumiu contornos de gigante, transfigurando a noite durante alguns minutos marginais, roubados à raiva dos que já sabem demasiado.

Caminha ainda enfeitiçado pelo fogo que o cegou com a brevidade de um regresso à vida, caminha perturbado, agarrando-se às batidas do coração e às sombras, imbuído de sangue e ânsia de mais fogo... Uma ânsia forjada quando o céu explodiu e ele olhou em redor e todos os seres lhe surgiram como cadáveres. O pavor invadiu-lhe o íntimo e os olhos transpareceram todo o terror que um ser humano é capaz de
manifestar até por fim o cérebro sucumbir e desmaiar.

O ruído, os risos e as atenções aprisionadas pelo fogo, roubaram-lhe a singular oportunidade de renascer reflectido no olhar real de uma pessoa, fosse ela quem fosse. E quando se permitiram aperceber-se dele, caído, já recuperara os sentidos. Ergueu-se amedrontado enquanto o fogo continuava a incendiar os
cadáveres que compassivos especulavam agora sobre ele, habitualmente invisível. Ergueu-se e afastou-se.
O fogo de artifício sempre fora um prestidigitador que o encarcerava por minutos na sua meninice, esquecido de tudo, e era a única razão para ter percorrido quilómetros a pé. Nessa noite esquecera a fome e a carrinha do voluntariado para fazer de conta que retornaria um dia ao presente, indo atrás do passado contido nuns minutos de ruído e cor. Mas a realidade desta vez atraiçoara-o e quando empurrou o portão do velho pátio, abandonado no tempo, sabia exactamente porque ali habitava.





Por Raquel Vasconcelos
in Jornal
O Progresso de Gondomar





A todos que por aqui

passam e "sentem"...

Bom ano de 2006!

33 comentários:

Anna^ disse...

Em alturas destas,a euforia e alegria de uns ,contrasta dolorosamente com o vazio e sofrimento de outros.Que o Novo Ano seja no mínimo mais humano para aqueles que sofrem em silêncio,esquecidos pelas multidões!
Parabéns mais uma vez Raquel!

bjokas grandes ":o)

Paola disse...

Obrigada pela linda mensagem de Natal,
desejo a vc toda Paz do mundo e que tudo seja realizado....


E a história continua.........

Paola

cm disse...

um feliz ainda 2005 e um 2006 de acordo com os teus anseios...gosto de te ler..um abraço

Misty disse...

Falta-me o tempo que queria para dizer alguma coisinha de jeito!
Olha, um beijinho, que 2006 exceda em muito 2005, com muita Paz, muito Amor, mais Humanidade! O resto, vem por acréscimo!

Beijinhos!

Mitsou disse...

Um 2006 recheado de alegrias e sucessos, querida Raquel.

Beijinhos doces e um sorriso de esperança...pois claro! :)

charlie disse...

Um momento de ilusão apenas. O correr atrás do efémero. Afinal como a nossa vida. Que só vale pelo curta que é. Feita de momentos apenas. Depois do brilho segue a monotonia. Fôramos nós infinitos no tempo e seriamos infinitamente monótonos.
Sem a nostalgia de querer agarrar o fugidio dum curto momento e vive-lo com o brilho das estrelas no olhar em breve ilusão de eternidade.

H. disse...

tu... e a vida.
e a escrita. e a vida...

Boas Entradas Raquel *
Que 2006 te traga tudo aquilo que já deixaste de ser capaz de pedir...
Mereces*

Beijinho *

APIUR disse...

olá, :)
óptimo Ano Novo com tudo de bom, mesmo tudo!Raquel,
bjs
Apiur

holeart disse...

2 0 0 6 v a i s e r u m g r a n d e n u m e r o s e m g r a n d e s " h o l e s " . p a r a t i u m g r a n d e e d e l i c i o s o a n o c h e i o d e c o i s a s b o a s .

Nilson Barcelli disse...

Raquel
Este teu conto é bom, muitíssimo bom. É triste, mas terminas o ano com o que de melhor já li nos blogues.
Quando queres és genial minha querida amiga.
Beijo

Luís Monteiro da Cunha disse...

Quanta realidade escondida nos olhares de quem vive, vivendo apenas.
Neste texto, tentas ver o mundo, e um momento em especial, pelos olhos de alguém que não vive directamente esse momento especial... mas que no entanto refugia-se nesse efémero momento procurando a sua fugaz lembrança de paz e felicidade vivida na meninice.
Adorei o contexto e a objectividade da narração.
Quanto ao momento especial que se aproxima... os desejos do costume!
Para não variar... torna-se fastidioso constactar depois que pouco muda ou mudará, apesar de todas as felicitações. Portanto desejo-te apenas isto: Vive em pleno!.
E se possível, melhora o que não foi totalmente positivo... em 2005.

Bjinho

Daniel Aladiah disse...

Querida Raquel
Tu não escreves somente... tu encantas com a tua maestria poética, que só alguém de uma rara sensibilidade é capaz de nos proporcionar.
Tudo de bom em 2006!
Um beijo
Daniel

Poesia Portuguesa disse...

A Vida que passa ao lado de nós, por vezes, iluminada, outras vezes em desmaios de fragrâncias ilusórias...

Sabes como gosto de te ler. A tua sensibilidade e a tua força e forma de expressão são únicas e inatingíveis?

Um grande abraço carinhoso e uma serena e feliz entrada em 2006 ;)

Dilbert disse...

Olá Raquel,
No meu balanço de 2005 ter conhecido este teu cantinho foi um dos pontos altos... não há dúvida que "As Palavras dizem muito mais..." quando escritas e conjugadas como tu o fazes.
Como estou quase de "abalada" até dia 2, venho já desejar-te uma passagem de ano em cheio e que 2006 te traga, a ti e a todos os que vivem no teu coração, muita saúdinha, prosperidade e amor.
Milhões de beijokinhas festivas e amigas

Angela disse...

Um muito BOM 2006, que te traga tudo aquilo que desejas. :)

Reporter disse...

Estimada Raquel
Um excelente ano para ti.
o n
Se eu fosse designer... b m a o...
E não estaria mal. :)

B
E
I
J
xnars
I
N
H
O

Reporter disse...

Estimada Raquel
Um excelente ano para ti.
o n
Se eu fosse designer... b m a o...
E não estaria mal. :)

B
E
I
J
I
N
H
O

Su disse...

um feliz 2006, cheio de sorrisos e coisas belas
jocas maradas

- r disse...

Que felcidade R.! Que desejos tão sentidos e bons!
Também para ti,
e para todos aqui presentes,
e para outros que não estão,
e para a Zazie, a Margarete, o Luís e outros que não me lembro do nome,
e para a Ana
Votos de:
muito amor, saúde e tranquilidade, com beijinhos desta outra '-r'

Fernando B. disse...


Hoje, ultimo dia de 2005, não comento textos, somente quero expressar a todas as minhas Amigas e a todos os meus Amigos, os meus desejos de um 2006, pleno de Paz e Amor. E que juntos trabalhemos para uma sociedade mais justa e mais Fraterna.

Fraternos Abraços e Beijos,

Miguel disse...

Desejo um ano novo cheio de alegrias e muita paz e amor.
Desejo que proporcione a realização de sonhos e objectivos
Sempre acompanhados de uma boa disposição para aproveitar todos os momentos !

!!! FELIZ 2006 !!!

Mil Bjks da Matilde, Ligia e Miguel Brito

Se ainda te lembras disse...

... feliz ano de 2006 ...
LM

Thiago Forrest Gump disse...

Olá Raquel, que 2006 seja melhor que 2005 com muita paz, saúde e felicidades.

Um beijo e Feliz Ano Novo!

KIM PRISU disse...

Bela vida cheia de palavras para 2006. Abraço.

Folha de Chá disse...

Um muito bom 2006, cheio de boas novidades. :)

alfinete de peito disse...

Querida Raquel,

Desejo-te um feliz ano novo e que continues a escrever neste 2006, cada vez mais e melhor.

Beijos dos Alfinetes.
Temos dito.

TMara disse...

O teu artigo....sem +comentários: De grande beleza e sensibilidade.
peço-te umfavorenvias-me ocódigo do banner k fizeste sobre a pedofilia? Lá no blog diz k está po baixo do banner mas,...nada, não me aparece.
Obrigada. bjocas doces

Thiago Forrest Gump disse...

Olá, só passando depressa! :)

luis manuel disse...

Raquel
Avaliar o que escreveu não faz sentido.
Criar uma crónica tão verdadeira, questiona-me sobre a sombra que projecto.
O abandono que mora ao lado, nos becos escuros, vazios da vida que não se alcança, é sentido nas suas palavras.

Obrigado pelos desejos para 2006
Que seja bom, e sobretudo melhor para todos.

OrCa disse...

Ora, viva! Desculpa o incómodo, mas hás-de ver se o meu desafio no Sete Mares te interessa.

Um abraço.

Aromas Do Mar disse...

Neste minha primeira visita em 2006, desejo o melhor para ti!

Beijo da Lina/Mar Revolto

Thiago Forrest Gump disse...

Visita rotineira! :D

Teresa David disse...

Vi o teu comentário ao meu grito "felino"! Ao percorrer o teu blog, além da qualidade que encontro, vejo a afinidade com os gatos. Já agora se quiseres espreitar o meu chama-se FANTASIAS, e tem o endereço teresadavid.blogspot.com
Parabéns por estares viva neste país de moribundos.
Teresa David