outubro 30, 2004

Confesso... estou farta!

Acabou-se, estou cansada de mim, dos sonhos que não tenho, da vida que não levarei, dos filhos que não desejo. Cheguei ao fim da linha. Não sei qual, imagino que seja a que me traçaram a tantos de Julho do ano de sessenta e oito. Devia ter percebido antes, quando fiz um ano e não era eu que pisava a lua. Mas estava num berço, e não sabia que crescer não tem a mínima graça.

Desconheço como começou. Anulei-me, não dei por nada, com um veneno que ignoro. Matei-me. Sim. Eu que agora me observo no reflexo difuso de uma vidraça, e vejo as lágrimas escorrer. Tenho pena de mim própria - enquanto neste preciso instante, crianças estão sob ameaça de morte. Já não consigo pensar em mais ninguém. Se é que alguma vez o fiz... Tentei destruir-me e consegui-o. Espero apenas o dia e a hora exacta em que o último resquício de medo se irá desvanecer para completar o que iniciei apenas na teoria.

Já tive sucessos, baloiços e bonecas. Já escrevi poesia esperando amor e sei que nunca mais voltarei a ser a mesma. Determinei por isso, que no milésimo de segundo em que não suportar mais ser um pedaço de nada, porei fim a tudo isto. Sem culpas para ninguém a não ser as minhas.

E ainda assim, vejo o ecrã através das lentes anti-reflexo e releio o que escrevo, na esperança de que façam sentido estas linhas de palavras a negro. Durante demasiados anos contabilizei distâncias entre caracteres e escolhas tipográficas. Critiquei-me e critiquei outros e caí finalmente na minha própria armadilha. Transformei-me num imenso cartaz publicitário do que é o falhanço.

A vida nada tem a ver com amor, sonhos ou uma lágrima ao enxergarmos algo de belo... A vida são as casas por pagar, os sonhos que se compram, os carros reluzentes, a roupas anunciando nomes que não são os nossos. Acabou a segurança do faz de conta... E comprovo o quanto estou só. Estiquei a corda até ao limite. Sabia - ou talvez não - que terminaria assim. Acordo a cada manhã à espera de um bater mais rápido do coração, à espera do medo. E por vezes... À espera de que talvez nesse dia possa sorrir e fazer de conta que nada mudou desde que gatinhei pela primeira vez.

5 comentários:

S. disse...

Hei!
Então, miúda? Isso é só hoje. Isso é do horóscopo, do tempo, da maldita TPM, é de tudo isso e de alguma coisa na água. E isso passa.
Costumo dizer aos meus amigos que ninguém é mais importante que nós mesmos. E que a vida não é tudo isso que disseste que não é. A vida não são as expectativas que nos inculcam desde o dia em que nascemos. A vida é aquilo que ela é, acrescentada de tudo o que somos de melhor e de pior. E que pode ser muito divertido. A vida é uma viagem, e nem sequer pagas bilhete. Por isso aproveita. Ainda tens sítios muito lindos para conhecer.
Vá, arriba mocinha!
Anda lá insultar uns tantos copis e mais alguns clientes, faz reset ao PC ou personaliza uma preferência no mac. Come um gelado ou compra uma roupa nova. Vá. Tu mereces tudo.

;)
S.

Margarida Atheling disse...

De blog em blog caí agora aqui!
Fiquei arrepiada! Eu também me sinto assim, muitas vezes. Demasiadas!
Mas não suporto "ouvi-lo" a outra pessoa.
Seja como fôr; o fim da linha não é aqui! Este NÂO É O FINAL DA HISTÓRIA! Não pode ser; não deixes que seja!

Anónimo disse...

"A vida é bela sem dúvida, sobretudo por não termos outra, e por sempre supormos que amanhã se nos entrega, o corpo que já ontem desejávamos."
É de Jorge de Sena e repito isto muitas vezes a mim mesma.Funciona, sobretudo se repetido com raiva.
è de um poema chamado: O Beco sem saída, ou em resumo.

Raquel V. disse...

A esperança...
Aquilo que nos move, aquilo que nos mantém por cá...

Obrigada

Anónimo disse...

Raquel, eu adoro-te.
És uma pessoa especial para mim. Agora tu já sabes isso.
Porque preciso de ti.
Porque não me canso de ti.
Porque te posso mostarar os sonhos que ainda tens para sonhar.
Porque a linha, apesar de temporária, ainda tem muito comprimento (eu ajudo a esticá-la se for necessário).
Porque eu não tenho pena de ti. Gosto de ti.
Porque tu não estás destruída, só precisas de reconstruir-te (umas pequenas obras apenas...).
Porque sei que ainda tens muitos sucessos pela frente.
Porque a vida é amor.
Porque eu e tu queremos viver.
Porque a vida é feita de coisas simples.
Porque eu preciso do teu sorriso.
Porque eu te adoro.
Porque és muito especial para mim.
Porque sim.
Beijinhos especiais.