maio 02, 2009


Há algum tempo que não escrevia crónicas. "Estou de volta".

Um grão de emoção

Hoje conheço-me melhor do que ninguém, porque sou eu quem diariamente veste a minha pele. Mas continuo a ser um enigma para a minha faceta mais racional. Somos o que fazem de nós, o que fazemos por nós, o que nos ensinam, o que aprendemos, um misto de genética e a miscelânea da realidade dos dias. As minhas emoções, as minhas lágrimas. Ninguém sabia se eu iria chorar a ver a vida dos outros num ecrã ou numa tela, ou conter a lágrimas porque [o meu] mundo não estaria preparado para me ver chorar.
O que parece um paradigma, ou não, de tecido grosseiro ou talvez banal, do ponto de vista psicológico é, no entanto, do ponto de vista da humanidade, o fragmento de um ser. Eu.

Ainda criança, o meu irmão mais velho encontrou-me a chorar qual Madalena arrependida perante o ecrã da televisão. Disparou uma simples frase “Só fazem coisas para as crianças chorarem”.
Puxei dos meus galões – recém-adquiridos - querendo defender quem nem sequer conhecia. Enxuguei rapidamente as lágrimas e resmunguei entre dentes frases vagas de criança de oito ou nove anos que acabou de ser apanhada a comer o seu bombom favorito às escondidas. Queria provar ao meu irmão que estava errado.
E nessa minha intenção, sucedeu algo incomum, estanquei as lágrimas durante três anos. Abafei em mim a emoção com um único propósito - “Não, eles não fazem só coisas para as crianças chorarem”. Era muito nova para perceber que além de extremamente teimosa, acabara por ficar prisioneira da minha tentativa de não culpabilizar a sociedade – sabia lá eu o que era isso – pois fora isso mesmo que o meu irmão tentara fazer - esquecera a emoção em prol da sua arrogância de adolescente. Éramos duas crianças num jogo psicológico de adultos.

A emoção faz parte de nós e não parece ser possível controlar-se facilmente, muito menos para uma criança. Por isso mesmo e ainda que sendo apenas uma garota, durante esses três anos olhei para dentro de mim mesma com surpresa. As minhas lágrimas haviam fugido, nada me comovia, era como um poço seco. Como criança que se ia desenvolvendo, pressentia que algo estava errado, ou melhor, exactamente por ser criança, achava tudo um grande disparate e por vezes espantava-me com a tenacidade com que cumpria aquela pena absurda. Afinal as crianças também “filosofam”…
No entanto, ao fim desses três anos, levei-me a um tribunal o mais imparcial possível e abri a porta da prisão, com tanta facilidade como a tinha fechado. E voltei a chorar a ver filmes, séries, desenhos animados, fosse o que fosse.

Anos mais tarde, já casada, o assunto das lágrimas voltou à baila. Ele gostava de filmes para rir e eu gosto de filmes com grande intensidade dramática. Eu chorava. Ele não. Eu aceito que desde as pedras da calçada ao cão da vizinha, todos chorem. Ele não. Olhava para mim, deveras irritado, ameaçando-me sempre que seria a última vez que veria aquele tipo de filmes comigo.

Mas continuei a emocionar-me até hoje. Apenas não uso rímel.

Raquel Vasconcelos, in Jornal Portal Lisboa


25 comentários:

Luis disse...

E a menina tão caladinha com pérolas destas guardadas na gaveta. Quero mais, s.f.f.

Luis disse...

Ah, esqueci-me de dizer: sem rimel fica mais bonita!

TMara disse...

digo banalidades. mas são as banalidades da verdade que, como as cartas de amoo tem smp - pelo menos um - toque de ridículo. K bom estares de volta e em grande forma. Já fui ao jornal e vim aqui dizer/deixar uma parcela da alegria que me deu este regresso e o prazer k foi ler este lúcido texto.
Bjs amiga.
Luz e paz em teu caminhar - com os dedos tmb se caminha.

Daniel Aladiah disse...

Querida Ana
Obviamente que chorar é obrigatório em muitas situações da vida. Eu deixei de ter vergonha e a prendi que um homem também chora.
Sempre em evolução, mas com tudo o que trazemos de trás...
Bem-vinda!
Um beijo
Daniel

Menina_marota disse...

Eu continuo a chorar... costumam-me dizer que sou uma piegas de uma chorona por que me comovo com tudo... especialmente, com a Humanidade ou, a falta dela...

Excelente texto que me comoveu, porque em grande parte, me revi nele.

Ainda bem que estás de volta! Fazes falta!

Beijinhos e continua a ser sempte TU.

Júlia Coutinho disse...

fiquei emocionada com este conto. parabens por voltares. fazes falta.
beijinhos

GMV disse...

Como gostei de te ler, Raquel!

Um beijo meu

Elcio disse...

Muito bom passear por este espaço.

Posts bem interessantes.

http://www.instantes.blogger.com.br
Este é o endereço q vale ok?

É isso aí.
Bjs

TMara disse...

e qnd sai a nova crónica???
hummmmm?
bjs
luz epaz em teu caminhar

Elcio disse...

Esses segredos contidos nos infindaveis universos de cada um de nós!

Outro dia li um texto e nele essa frase chamou-me a atenção:

"a tua voz é o teu retrato sonoro"

Ao ler a frase de teu irmao, lembrei-me da frase acima.

É isso aí.
Bj e bom fds.

Vale o endereço abaixo ok?

http://www.instantes.blogger.com.br

T-shirts da Madalena disse...

Deliciei-me. Como não temo emocionar-me, choro ou rio consoante as circunstâncias e com o mesmo fervor. Transparência é coisa boa.
Espero voltar por aqui muitas mais vezes.
Humberto

Fa menor disse...

Boa Raquel! Gostei muito do remate final! Revi-me em cada traço descrito...
Que somos nós sem a emoção?

"A vida não é medida pela quantidade de vezes que respiramos, mas pelos momentos que nos tiram a respiração."

Obrigada.

Beijinhos

Sonhadoremfulltime disse...

Olá Raquel,
que beleza de texto, de sentir, de vida.
Um obrigado sem rimel.



JC

Stella Tavares disse...

Quanta beleza e sensibilidade! Você sabe sobre atalhos para chegar no coração de quem se delicia com suas palavras. Bjos

Bichodeconta disse...

Como estou emocionada.Os adultos, neste caso um aprendiz de adulto já queria refrear em ti as emoções, conhecendo-te sabe-se que não há força que te prenda.Quando te vi não sei se tinhas rimel, mas sei que estavas muito bonita naquilo que me foi dado ver mas sei que te achei e continuo a achar linda na outra perte de ti, do avesso lol.Por dentro.Gosto muito de te ler, pela força que há em ti e se semte em cada palavra escrita, pela força que se fica até nas entrelinhas. Um beijinho, Ell

Edite Esteves disse...

Gostei de saborear.

António R. disse...

Mais importantes que as lágrimas de tristeza...são as de alegria.

quanto pesa o vento? disse...

gostei muito de te ler.
boas escritas.
abraço.

VÉU DE MAYA disse...

Neste você, tb ficou parada:

conhece aquela piada que se conta do Bocage poeta: ao sair do café Nicola, um transeunte perguntou-lhe:
Quem és, donde vens e para onde vais?
Resposta do poeta:

Eu sou o poeta Bocage, venho do café Nicola e vou pró outro Mundo se disparas a pistola...

Beijinho

véu de maya

Blogadinha disse...

Porque do lugar comum bem sabemos, os homens também choram. Prometi regresso e saio com promessa renovada. Boa continuação!

Diego Schaun disse...

Olá, sou Diego Schaun, poeta e músico baiano. Forte abraço! Adorei teus escritos!

(músicas)http://palcomp3.comn/diegoschaun
(blog) http://diegoschaun.blogspot.com (twitter) @diegoschaun

Bichodeconta disse...

Vim rever-te, reler-te.Tenho saudaades de ler algo inteligente , interessante.No face as palavras fogem-nos á velocidade do vento, aqui , serenas esperam por nós.Diferença que me faz ter saudade de voltar aqui e de ler os amigos, de te ler a ti..Beijinho Raquel.Para quando mais crónicas com a qualidade e a magia a que nos habituaste '

Anónimo disse...

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Alberto Quadros disse...

Um homem que não chora, não é homem.
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Alberto Quadros disse...

lástima que desista de nos dar mais mensagens