fevereiro 02, 2006

Torpor mortal

Nada sinto, a vertigem é real, a convicção de que não
sou capaz de verter uma lágrima entrega o corpo a uma pausa forçada. Um coma induzido de todos os sentidos. Não traduzo as razões, não as quero traduzir.
É de noite e os pilares de cimento são imensos, projectando sombras disformes que ocultam a luminosidade a cada pilar que por mim passa. Queria esconder-me por detrás de cada um deles, mas derroto a covardia eminente e avanço até ao fim do túnel onde a luz incendeia as pupilas.
Rostos, casacos, malas, sapatos que caminham contra mim e em que tento não reparar. Vejo-me reflectida nos olhares... Sou o oposto do real. Sinto-me um espectro saído das trevas que atravessa uma existência inerte, inserida num enorme cenário de papelão, colorido e envernizado, mas mesmo assim inerte. O coração deles bate coordenadamente. O meu está a estagnar.
Não sei contar o tempo, procuro uma lógica neste labirinto de claridade e gente e vagueio sem me recordar do meu propósito inicial. Cada passada é mais densa que a anterior. Os meus olhos, que interessam os meus olhos? Porque os observam? Porque me encaram, se desejo passar despercebida? Como abutres, devoram mágoas, pressentem a mais ténue discrepância na encenação e eu sou um contra senso neste palco.
De novo o mesmo corredor, as mesmas escadas... O que faço aqui? A luz atraiu-me qual borboleta à lâmpada que brilha na noite fria mas não há calor. Não... A temperatura do meu corpo desce segundo a segundo e apenas o espanto inicial mantém alguns intervalos perfeitos na respiração que afrouxa.

"Tornei-me num sinónimo vazio de mim mesmo, os despojos de uma batalha que se iniciou no centro de ti. Foste o teste, a impunidade, a roleta russa. Ainda tens tanto para viver, tudo que já vivi e ainda mais. Eu... Poucas oportunidades tenho, se te empurrar tu apenas cais... Se me empurrares esfumo-me" - pensaste.
Foi uma aritmética perfeita. Indestrutível. E minha a juventude foi a desculpa perfeita para uma saída irrepreensível quando te despediste de mim.
Mas quando te ias embora paraste, viraste-te, e encurtaste a distância entre nós tão rapidamente que me assustei. Sussurraste algo que o ruído ensurdecedor do comboio a aproximar-se não me deixava entender. Amo-te, escutei. E sorri, enquanto as tuas mãos contra o meu corpo me empurravam para a linha.


Por Raquel Vasconcelos
in Jornal
O Progresso de Gondomar







25 comentários:

menina graça disse...

Uff... A tua escrita é um abismo. Lê-se sem parar e corta-nos a respiração. Há muita coisa que só assim é exorcizada. Nesta escrita que rola para o precipício.
Beijos

Dilbert disse...

Poxa miguinha...
Doi-me ver-te assim a escrever...
Anima-te e põe um sorrisinho nessa carinha...
A vida surpreende com coisas boas quando menos se espera...
A tia també surpreenderá... até lá... vai vivendo a chuva limpa que cai, gozando a flor que cheira, acariciando o sol que aquece...
Beijinho do miguinho

Å®t_Øf_£övë disse...

Raquel,
Já te disse que adoro ler-te, não já?
Este texto então está super envolvente de tanta carga emocional, e tanto sentimento.
Bom fds.
Bjs.

Friedrich disse...

Existem momentos em que se escreve assim, porque não se encontram motivos para aligeirar a dor sentida, mas depois, abrem-se os caminhos da nossa satisfação evitando que outras mãos nos empurrem para a linha? Mais palavras para quê? Se cada um tem as mãos posicionadas ao derrube dos nossos sonhos. Como escreves bem Raquel, que nos deixa ficar a pensar na última vez que fomos empurrados ao inevitável.

Beijos, BFS

Su disse...

tantas palavras, tantas emoções...
adorei ler.te
jocas maradas

luis manuel disse...

A futilidade das paredes de uma ilusão, permitem a libertação de qualquer teia.
O afastamento, para lá da linha, já não são só fruto das mãos que empurram.
O regresso consciente ao proósito inicial, conduz a uma caminhada firme e com sentido.
E tudo não passou de uma queda.
Beijinhos Raquel

M.Azul disse...

Sofres - o seu amor sofre..."Ela não. É de pedra! Vive nas zonas geladas. É insensível".


Pois, mas ela é o que não está dito ali, agora é quase um vazio - somente a preenche o amor que sente por ti

Miguel disse...

Fiquei sem palavras perante sublibe narração!

Sem saber o que comentar, o que dizer!

Os meus sinceros parabéns!

Votos de um Bom FDS!

Bjks da Matilde

Nilson Barcelli disse...

Sublime e assustador.
Realista e surrealista.
Verdadeiro e paranóico.
Etc....
O teu texto é uma coisa e o seu contrário.É quase aquilo que quisermos que seja. Depende muito do nosso estado de espírito ao lê-lo. Já o tinha lido ontem e não o comentei, porque queria deixá-lo amadurecer, depurar. Libertá-lo da intimidade da autora. Hoje já tenho outra visão, não tão redutora como ontem. Amanhã talvez veja as tuas palavras ainda de outra maneira completamente diferente.
Por outro lado o texto, uma espécie de ensaio ou conto, termina de um modo inesperado, intenso, podendo ser a metáfora de situações do quotidiano que a todos ocorre.
O teu texto é óptimo. Parabéns.
Beijinhos

Teresa David disse...

Parece-me formalmente bem escrito, embora o negrume do conteúdo seja um bocado violento para as coisas que não gosto nem quero sentir. Mas é um texto e o resto é secundário para mim.
Beijos
Teresa David

TMara disse...

1 regsto impressionanre cosntruído com sangue,dor e precisão. belíssimo.Bjs amiga e bom domingo

TMara disse...

Amiga, foste DESAFIADA, p.f. passa na mingha casa http://fragmomentos.blog.com/

bjs de luz e paz e bom domingo

Su disse...

psssttttt
passa lá por casa, tenho uma prendinha para ti

jocas maradas

TMara disse...

tem uma boa semana. bjocas de luz e paz ;)

concha disse...

Ler-te às vezes dói tanto. Não é que não escrevas bonito (escreves!) mas bolas (em cheio)!(andei a cuscar os passados do blog!)
Boa semana e mil beijinhos

alfinete de peito disse...

Acho que por muito que tentasse escrever como tu seria muito complicado...isso vem mesmo do fundo.

Beijocas.
Temos dito.

francis disse...

Devastadoramente... real!
Cru e sentido. Óptimo! :-)

manuel disse...

A tua escrita é luminosa, mesmo quando o lado negro toma conta do texto. Escrever (bem) é (também) surpreender. E tu surpreendes-(me).

Beijos

Miguel disse...

Raquel,

Passa n´A Minha Matilde pois deixei-te lá um Desafio ...!

Bjks da Matilde

Thiago Forrest Gump disse...

Texto marcante Raquel.

O texto na gif é magnífico. Vou copiá-lo. :)

JMTeles da Silva disse...

Bolas, cada vez que aqui venho fico mal disposto, com um nó no gógó. Caneco, escreve uma coisas mais levesitas. Não sejas tão portuguesa. Já sei que te vais zangar mas tens de me ouvir.
Um aparte: a qualidade é inquestionável.
O resto, é conversa.
Bjokas.

kiara disse...

ola, adorei o k escreveste, mesmo deissipaste o k vaina alma escreveste a tua dor no sangue enfim estou arepiada

Dilbert disse...

Olá miguinha krida (bem... tanto mel... que quererá este, perguntas tu... eheheh),
Pois... sei que já comentei este teu Post mas venho aqui para te anunciar que foste contemplada para o seguimento de uma corrente em "http://confessionario-do-dilbert.blogspot.com/2006/02/apanhado-na-corrente.html", eheheh
Jinhos

charlie disse...

Já te tinha dito minha amiga, que eras maravilhosa?
Não? Então lá vai: ÉS MARAVILHOSA!

ernesto esteves disse...

Bolas, bolas... estes poetas, mesmo que em prosa, deixam-me a ver navios com esta arte de brincar com as palavras para expressar as suas emoções. Gostava de poder entendê-los. Sinto que é algo muito profundo mas, infelizmente, não consigo abranger toda a plenitude destes sentidos. São, para mim, inatingíveis... são gente de outro mundo, que está a viver no meu.
Parabéns por este Dom inefável ;)
Gostei de navegar por entre as palavras... deliciei-me. É uma viagem maravilhosa... um conto de fadas... fui uma Alice no país das maravilhas.