fevereiro 14, 2006

Sabes o que te digo?


Ninguém deita o passado fora sem olhar para o caixote do lixo mil vezes antes de se decidir, particularmente as pessoas que abominam deitar fora seja o que for - a camisola velha e larga vai sempre dar jeito e as calças às flores talvez voltem a estar na moda.

Sentimo-nos vencidos quando abandonamos algo na viagem, seja qual for a razão. Nas amizades que esmorecem - tal como com os casamentos que morrem - as culpas são postas na mesa como se fossem baralhos de cartas.
A culpa... Como se nisto de viver fosse sempre sumário apurar culpas atirando-as depois para um canto, para as esclarecer mais tarde. Talvez absolvendo-nos, talvez carregando com elas eternamente. A culpa é um substantivo e um substantivo é seguramente concreto, palpável, o que nos afasta do fosso do abstracto, muito mais intimidante.

Não há saídas. Pedir desculpa? Pedir desculpa é solicitar ausência de culpa e não desejamos fazê-lo porque ao substantivarmos a culpa não restou determinação para mais nada.

Fechámos tampas imaginárias de caixas imaginárias e encerrámos lá os assuntos incómodos. Arquivámos amizades com julgamentos pendentes.
E como em tudo que é imaginário, as caixas pairam num limbo de pó e esquecimento onde nada tem resolução e as amizades de longa data, ilusoriamente sólidas, mantêm-se estagnadas. O tempo desfaz-se em dias que decorrem e a culpa não se decifrou ou perdeu contornos.

Passa um ano, passam três, passa uma década. Por vezes olhamos para aquela rua, prédio ou café e estão lá encerradas cenas que se mantêm presas a nós, engastadas em neurónios que momentaneamente faíscam, colidem e fazem o estômago apertar-se imperceptivelmente. E aí mais uma vez a fuga: culpa, alguém teve culpa. E o estômago descontrai-se e a dor dilui-se pelos outros órgãos, aparentando diminuir.

Mas existem breves instantes em que nos deixamos levar pela nostalgia, esquecemos quem terá feito o quê e aperfeiçoamos essas mesmas cenas até ficarem nítidas. Natais, Páscoas, Carnavais, férias, aniversários, casamentos, nascimentos. Muitas horas somadas às nossas vidas que se esboçaram e concretizaram em comum. Risos, palavras soltas, conversas longas ou confissões, divergências, opiniões e emoções que explodiam sem hora marcada? Que a nossa retina fotografou e todos os outros sentidos assimilaram e guardaram.

Por isso, sabes o que te digo? Acho que estou para aqui a divagar. A vida ainda vai a meio e eu até detesto culpas, mesmo que sejam substantivos fáceis de arquivar. Vou vestir um casaco e dar aí um pulinho.




Por Raquel Vasconcelos
in Jornal
O Progresso de Gondomar




17 comentários:

Miguel disse...

Do teu belo texto, podemos tirar uma conclusão rapida ...

Tudo isso é sinal que estamos vivos e desejamos viver e suplantar os acidentes inconvenientes que nos deparamos nesta vida ...

Não podemos jogar fora o Passado ...
Tal como não podemos esquecer o Presente ...
Nem sacrificar o nosso Futuro!

"Vive, amando!
Ma, vivendo!

Um dia Feliz...

Bjks da Matilde e do Miguel

AS disse...

Querida Raquel,
Um excelente artigo de opinião, bem ao teu estilo. Actual, claro e muito bem dirigido!... GOSTEI!!!

Beijosss

Anna^ disse...

Uma abordagem clara sem subterfúgios;
Como sempre,gostei muito!

bjokas e um bom dia ":o)

zé das loas disse...

Claro que gosto do que escreves. E da forma limpa com que "arrumas" os assuntos (dos textos, claro...)

beijos

Thiago Forrest Gump disse...

Ok. Vou esperar-te. ;)

Friedrich disse...

E como sempre, disseste muito bem. Registo as tuas palavras em tantas páginas, mesmo que sejam divagações, as conclusões podem ser óbvias daquilo que muito se sente. E o sentir é a prova de que o passado valeu a pena, porque ele jamais se repetirá... Insiste-se em contornar as nossas vidas, afim de lhe dar o significado que se ambiciona.
Dá um pulinho pela minha casa então, mesmo sem vestires o casaco porque lá não está frio?

Beijos, boa semana

holeart disse...

eu deveria sair... e.... e....
...e....e

Daniel Aladiah disse...

Querida Ana
Sem culpa, deixando o passado na memória e olhando de novo o mundo, contendo a angústia com um sorriso determinado.
Um beijo
Daniel

GNM disse...

Muito verdadeiro este teu texto!

Passa um excelente fim de semana e, se puderes, sorri!

charlie disse...

A vida. A nossa vida está sempre no princípio. A um mero instante de acabar.
Num relance, após um sorriso cheio de sol no olhar, fecha-se a última página do livro. Todas as histórias de vida ficam por terminar. Lemos, uma após outra até nos darmos conta que um capítulo fica a meio duma frase. Sem um epílogo assim de repente acaba, episódio a meio dum sorvo de futuro. Vivemos todos a ilusão secreta da eternidade. Mas o presente já era e é ele que nos leva na direcção do incerto previsível. Desculpa Vida, não te posso levar comigo para sempre....

Kalinka disse...

Olá, passei para te desejar um bom domingo, mas...deparei-me com um texto tão envolvente, tão verdadeiro, que aqui me quedei e fiquei presa à leitura do mesmo.
Como escreves bem...Parabéns!
Logo a 1ª frase me prendeu à leitura: Ninguém deita o passado fora sem olhar para o caixote do lixo, mil vezes antes de se decidir...como é verdade!
Eu sou mesmo assim em relação a tudo, sejam roupas, calçado, papéis, revistas, sei lá que mais!
Beijokinhas.

zé das loas disse...

Deixo um beijo. Grato pelo comentário, menina sagaz...

Beijos

alfinete de peito disse...

Já percebi porque escreves para um jornal...é que dás-lhe forte e feio.

Temos dito.

Luís Oliveira disse...

Raquel

Uma gondomarense...ai se o Valentim descobre...tás feita ao bife.
Feito ao bife tou eu com os códigos que vcs metem nisto...lá vou eu á pesca das letrinhas.
Bjs

TMara disse...

bjs minha crida.

amita disse...

Uma flor por este excelente artigo e um bjinho pelo mail de tão nobre causa(já coloquei nos dois blogs, mas primeiro que acertasse!!!!Por isso é que ainda não actualizei os links (lol)).
Bjokas linda que tão bem escreves

mgbon disse...

O que acontece é fruto de comportamentos inerentes à personalidade de cada indivíduo. Há personalidades compatíveis outras nem tanto...
E assim "O tempo desfaz-se em dias que decorrem sem culpas, pois é impossível decifrar os contornos"...