novembro 06, 2005


Passou pelo ginásio tentando deixar lá as preocupações. O dia fora excepcionalmente cansativo. Os telefones não paravam, o telemóvel vibrava a todo momento no bolso do casaco, o ruído surdo, incessante e insuportável do escritório invadia-lhe os tímpanos como se tudo fosse parte de um teste de resistência para todos os ocupantes da imensa sala de paredes falsas. Open space. Um modelo que sempre associara a calma até se ver submerso nele.

Talvez fosse por ser sexta-feira, pensou, e o cansaço acumulado não lhe permitisse a fuga mental mesmo com música para relaxar - tinham-lhe garantido que aquele tipo de sonoridades o distrairiam o suficiente para reinventar o open space. Alegara uma qualquer medida médica e o termo "médica" ressoara na mente do chefe que não prestara atenção ao resto e por norma não era contra qualquer tipo de sons.

Por vezes fazia pausas compulsivas. Curiosamente a máquina do café ficava do lado de fora do open space. Escapava-se deste e atravessava o corredor, entrando numa pequena sala sem definição estética. O líquido escuro caía no copo de plástico e depois o silêncio total... Aproveitava por alguns minutos o único sofá a que a sala tivera direito e pouco depois a rotina caminhava direita a ele, novamente.

Profissionalmente gostava do que fazia. Mas reconhecia que a vida estava a adquirir uma rotação com que não contara. E recordava-se dos pequenos hamsters, nas lojas de animais, correndo, incessantemente nas suas rodinhas, sem chegarem a lado nenhum. "A lado nenhum" talvez fosse uma injustiça. A casa era maior, o carro era maior, a família aumentara. É verdade que os via menos - ou talvez estivesse apenas demasiado cansado para os enxergar - mas isso era o mesmo que aceitar um qualquer lugar comum. Toda a gente se vê menos ao longo da vida. Até nos colegas reparava menos. Estava apenas a tentar dar um pouco mais à família e a ele próprio. Estaria a querer acelerar o processo? Dar mais em menos tempo? Não o sabia com exactidão e não queria pensar nisso excessivamente.

Mas em prol da saúde, ou de alguma mensagem subliminar, decidira inscrever-se num ginásio. Era uma maneira saudável de pensar em algo mais do que trabalho casa, casa trabalho, e o médico de família perseguia-o há anos com a ideia de que se exercitasse. E todos os amigos estavam a ir para ginásios. Por isso falseara um pouco o exame médico com mentiras inocentes, pequenas omissões, na verdade. Todos entraram no jogo, os amigos que o avisaram que pormenores em excesso atrasariam a inscrição, o médico que despachara a consulta e ele com as suas omissões.

E nessa tarde estava a saber-lhe bem a aparente pausa. Deixou os pensamentos errarem enquanto "fazia" bicicleta. Como tinha o sentido do absurdo das situações, e o ginásio lhe surgia desmultiplicado em dezenas de espelhos, não podia deixar de sentir que saíra de um open space para entrar noutro. Preferiu abstrair-se. O cansaço sempre fora um bom método para a civilização se tornar impotente contra as amarguras. Quando dói não se sente mais nada. E o ritmo que se impusera começara a doer-lhe. Sentiu-se tonto, sonolento. A dor no peito surgiu, incómoda, inflexível. Num ápice, os espelhos do ginásio desapareceram e à sua frente estava um vidro sujo, pejado de dedadas. Do outro lado, um imenso hamster observava-o, curioso.



Por Raquel Vasconcelos
in Jornal
O Progresso de Gondomar

27 comentários:

Daniel Aladiah disse...

Querida Ana
Como sabes, já tinha lido este texto, que muito aprecio pela sua originalidade na forma de abordar a vida moderna.
Um beijo
Daniel

TMara disse...

belíssimo e doloroso olhar sobre o nosso modelo de vida. Amiga, obrigada pela visita e companhia no dia de ontem e ternura assim ofertada. Boa semana, Bj de luz e paz :)

Nilson Barcelli disse...

Este teu texto assusta-me...
Será que estou a ficar um hamster?
Beijinhos.

JMTeles da Silva disse...

Agora já sei porque embirro com hamsters. Obrigado Raquel. Se vir mais algum dou-lhe uma dentada.
O teu texto está muito bem engendrado e preocupante.
Bjokas.
PS: onde páras?

sonia disse...

Adorei este texto. está muito bom, meso. parabéns.
beijinhos

gato-escaldado disse...

a "normalização". o quotidiano fechado. a alienação. o tédio. um achado a "desmutiplicação" nos espelhos do ginásio. um belo texto, mas não te dou novidade nenhuma. beijos

Menina_marota disse...

O outro lado da vida que queremos melhor... mas que não chega a trazer-nos aquela tranquilidade almejada... Os bens materiais, acumulam-se é verdade...

Mas bastará?

Um dia reparamos, que afinal, nem temos tempo de gozar aquilo porque trabalhámos tanto!

E, olha o que eu sei do que falo!

Que interessa o tamanho da casa, do carro, da conta bancária!

E o tamanho dos afectos? Cresceram?

Mais do que nunca, interessa-me muito mais o tamanho dos afectos, que da casa (é tão grande agora...)sentir paz e serenidade dentro de mim e, preparar-me para enfrentar o grande combate, que ainda vou ter...mas os afectos vão crescendo dentro e fora de mim...

Um abraço carinhoso ;)

JSilvio disse...

grande texto =)

Su disse...

gostei de ler-te
o nosso quotidiano aí estampado nesse belo 1º paragrafo.
a vida passando a correr, num circuito fechado
triste e belo
"dar mais em menos tempo?"
a dor, o fim, a queda
(detesto hamsters)
jocas maradas

Friedrich disse...

O open space é só mesmo para disfarçar, e porque é uma maneira fácil de dizer que não tem paredes, entendo-o mais, closed space, ou como o próprio titulo do post. indica. Não frequento ginásio mas nada tenho contra; além de ter em casa três monitores que puxam por mim à brava, e esses já me fazem transpirar o suficiente para continuar elegante. Prefiro antes ir até à praia, que nesta altura do ano é uma tranquilidade imensa, que nos faz esquecer os dias menos bons e não sentimos o tecto em cima da cabeça... E também não se vê "Amesters gigantes" com frequência, é mais gaivotas em plena liberdade. Mas este texto está uma delicia, dá que pensar, que a maioria do tempo das nossas vidas estamos encaixotados, mas para não passarmos a dormir debaixo das pontes limitamo-nos a suportar o empacotamento...

Beijos, Raquel

Rui disse...

Fiquei a pensar. Obrigado.

Adryka disse...

Minha querida, são retalhos da vida moderna, quem a não conhece essa vida.beijinhos querida

Angela disse...

Pendurar a vida em espera, só para continuar na roda dos hamsters. :( E deixar de viver, deixar de ter um corpo que funciona. Isto é um retrato da vida de hoje, vivida por tantos. Um grande lembrete, um grito de aviso para tantos.

GNM disse...

Que grande cronista!!!

Fantástica a forma como discorres sobre o absurdo da exitência humana. O final é bem original!

Continua a sorrir!
Besitos

H. disse...

Uma passagem apressada? um olá, um outro pequeno adeus, um grande obrigada. Ando consumida pelo tempo e lutando contra amarras de sonhos que me prendem e me libertam. Ando assim, vivendo por aí, procurando a alma em todo o lado. Ando mais distante, eu sei. Mas em breve voltarei eu. Ou um outro eu. Todos os dias.
Só para dizer... Obrigado pelas visitas.
E não, NÃO ME VOU EMBORA! Apenas o nome e o endereço mudaram... Agora sou em: www.aquelelugarperdido.blogspot.com
Vão e voltem sempre. É também por vós que continuo.
Bjo *

Lost

Tatiana Valentina disse...

Deu-me o que pensar este texto....
Poderoso...

regressarei brevemente :)

Nilson Barcelli disse...

Então ainda não tiraste mais nenhum hamster da cartola?
Tira minha amiga, porque tu escreves bem e ler-te é sempre uma coisa boa.
Beijinhos

AS disse...

Querida Raquel,
Talvez muita gente devesse ter lido este texto há muito mais tempo...

Um beijo grande

agua_quente disse...

Pronto, lá conseguiste tu arrepiar-me toda! É verdade que o nosso estilo de vida nos aliena completamente até que começa a doer. Sorte têm aqueles que dão pela dor a tempo e fazem algo para mudar. A imagem do hamster é extraordinária.
Beijos

Å®t_Øf_£övë disse...

Raquel,
A comparação que fazes com o hamster está fantástica.
Gostei da forma com descreveste a evolução da vida através do pensamento da tua personagem, é que normalmente é mesmo assim. A forma como acaba a história também faz parte das muitas surpresas que a vida nos guarda ao dobrar de cada esquina.
Bom fds.
Bjs.

TMara disse...

Bjs e um bom dia, amiga :)

MARIA VALADAS disse...

Cá estou novamente para me inebriar com os teus textos!!
Raquel...neste momento da minha vida....vir ao teu blog...é um verdadeiro balsâmo para mim...
em certas partes do texto..revi os tempos em que vivi por idênticas situações........mas agora digo....
QUE SAUDADES DESSES TEMPOS!!
Mas, como sempre fiquei deslumbrada
pela tua capaciade de comunicares
ao teu semelhante..MUITAS VERDADES!!
Beijos................maria

mfc disse...

O meu comentário desapareceu... fui o 1º a comentar este post!!!
Cito de memória.
A vida comporta riscos, mas viver sem eles é deixar mais cedo de viver!

titas disse...

Excelente, Raquel!

//(~_~)\\ um beijo da Titas

GNM disse...

Passo para desejar um excelente fim de semana...

Bjitos e uma flor!

TMara disse...

tudo bem contigo? Boa semana. bj de luz e paz

luis manuel disse...

Texto muito bem conseguido. Simples, mas certeiro.
Conciliar a família e o trabalho, é algo que quase todos já sentimos.
Em muitas empresas ainda se pensa como à décadas atrás, onde as mulheres são excluidas de promoções, atrasam a sua prespectiva de mataernidade, e os homens aceitam uma atitude obsessiva de mais trabalho - mais horas, como se isso fosse sinónimo de dedicação e consequentemente ao virar da esquina, surge a promoção ou o enriquecimento.
Depois, vêm essas alternativas de ginásios, piscinas - em casa ou públicas, como receitas modernas de vida saudável - que o são na sua essência, mas que qual milagre imediato resolvem o essencial.
Saúde, bem estar e tempo para uma melhor vida pessoal e familiar.
Por vezes (se calhar muitas vezes) tarde de mais.

Um grande abraço