outubro 08, 2005

Quem bate
em quem?

A violência sobre a mulher tem sido amplamente debatida.
Mas nesta questão, continuam a ser deixadas para trás as crianças. E é imperativo que exista a noção de que a violência é também praticada em larga escala contra estas. Com a nossa autorização. No seio da própria família.
Continua a ser não ser considerado incorrecto o uso de violência física como parte integrante do ensino de uma criança. Como se o uso da força, por ser aparentemente educativa, possa perder a sua conotação de violência.

Parece-me inexplicável que sendo grave, e até passível de ser punível por lei, um adulto agredir outro adulto - de massa corporal relativamente similar - seja no entanto, perfeitamente aceitável, que esse mesmo adulto utilize a agressão física para disciplinar uma criança, cuja massa corporal é, muito provavelmente, um terço ou um quarto da sua.
O que muda neste quadro? A forma psicológica de encarar a violência que, apelidada de disciplina, se torna aceite por todos? É inadmissível que esta situação, que ocorre em inúmeros agregados familiares, continue a passar em branco. Uma realidade constantemente desculpada com a justificação de que se utiliza a força de forma controlada.
Quando chegamos ao fundo da questão, no entanto, deparamo-nos com crianças que sofreram agressões que já ultrapassaram há muito os nossos limites psicológicos do que é aceitável. Ninguém se dera conta porque as crianças, muitas vezes, se transformaram em seres invisíveis. Para quantas pessoas é comum o filho do vizinho que grita desalmadamente porque... "por alguma razão será"?
Todos ficamos profundamente chocados se presenciarmos um homem a bater numa mulher. E é comum que alguém intervenha. Mas se um pai bate no filho, a sensação de desconforto é calada e é raro interferirmos. Vindo ao de cima a ideia enraizada de que não nos devemos intrometer na educação que cada um dá à sua família.
Assim se pensava em relação às mulheres. Havia o dever de "educá-las", se necessário, pela agressão física. Estas passavam das mãos, pouco delicadas de um pai, para as de um marido que as manteria debaixo da mesma forma de violência. Não será afinal a herança desta mentalidade que mantemos para com as crianças? Persistindo na despenalização de "gigantes" que de mão em riste educam... ou matam?



Por Raquel Vasconcelos
in Jornal
O Progresso de Gondomar




(Música: Luca, Suzanne Vega) My name is Luka / I live on the second floor / I live upstairs from you / Yes, I think you've seen me before. / If you hear something late at night, some kind of trouble some kind of fight / Just don't ask me what it was, (..) I think it's `cos I'm clumsy / I try not to talk too loud, Maybe it's because I'm crazy / I try not to act too proud, They only hit until you cry, and after that you don't ask why / You just don't argue anymore,(...) / Yes, I think I'm okay / Walked into the door again, If you ask, that's what I'll say and it's not your business anyway / I guess I'd like to be alone with nothing broken, nothing thrown / Just don't ask me how I am,(...) / They only hit until you cry, and after that you don't ask why / You just don't argue anymore, (...)


32 comentários:

mfc disse...

A violência doméstica existe, mas os seus números conhecidos são uma ínfima parte da realidade.
Ela desenrora-se na surdez e mutismo do lar, poucas vezes sai cá para fora!

TMara disse...

amiga, absolutamente correcto. Só teposso dizer k nunca fico quieta nem calada qnd assisto.E o meu limiar detolerância para certos actos é muto baixo. Até, nas prais, jardins, esplanadas, a criança k chama pelos pais querendo mostrar algo...minutos a fio.nessas alturas tento estabelecer contaco directo com a criança. A nossas crianças são muito mal tratadas, mesmo qnd não há violência aparente. fico adoentada. A alma queixa-se. devemos entender k as crianças são de todos enqt responsabildade.
Bom domingo. Bjs e ;)

Reporter disse...

Poderíamos generalizar e exigir o fim da VIOLÊNCIA. Independentemente do estatuto da vítima.
E tudo começa em nós. Todos.

Daniel Aladiah disse...

Querida Ana
Sempre oportuno falar sobre esta questão. Felizmente, a incidência de agressões (não a palmada disciplinadora e muito pontual) físicas às crianças tem diminuído, pois antigamente era normal a volência em casa, na escola e no trabalho.
Um beijo
Daniel

in_cognito_1 disse...

Gostei muito do teu blog e penso que escolhes-te muito bem a música, gostaria que me disses-ses qual é o seu compositor...

Å®t_Øf_£övë disse...

Raquel,
Trazes hoje aqui um tema que tem tanto de polémico, como de contoverso e real.
Penso que as mentalidades estão a mudar, e tal como acontece no que se refere à mulher em que as coisas evoluiram bastante, relativamente às crianças o mesmo se está a passar, embora de uma forma mais lenta. E isso é a unica coisa que teremos a lamentar no meio disto tudo.
Boa semana.
Bjs.

concha disse...

Tema tão difícil Ana, tão escondido. Que bom encontrá-lo assim, tão bem abordado e à solta na Blogosfera

Luis Silva disse...

não perca o circo "Geração Chupeta".um abraço

Nilson Barcelli disse...

Bate-se nas crianças porque a sociedade não o condena de uma forma visível.
O problema é a cultura que temos, neste e noutros domínios.
A título de exemplo, há tempos conversava eu com uma professora do ensino básico e, a propósito disso, ela disse-me que bater, ainda que sem violência, na hora certa era bom para educar as crianças.
Claro que eu lhe disse que NUNCA se devia bater numa criança e não admitia excepcções, quer para os pais quer para os professores.
Ela NÃO CONCORDOU comigo. Se estes princípios ainda existem entre os professores como é que se poderão banir da sociedade em geral?
Beijinhos e boa semana.

JMTeles da Silva disse...

Fizeste muitíssimo bem em puxar este assunto. Melhor ainda ter sido editado numa publicação mais divulgada que um blogue. Não é que este não tenha uma vasta assistência também :)))Bjokas.

Tão só, um pai disse...

Há psicólogos para quem uma palmada na altura certa não terá nada de mal. Será?

Tão só, um pai disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
agua_quente disse...

Só posso aplaudir a tua abordagem a este assunto. Infelizmente, de facto, a violência sobre as crianças ainda é muito tolerada como uma forma de "educação".
Gostei muito de te ler e a música não podia ser melhor escolhida!
Beijos

Adryka disse...

Querida Raquel oiço falar de ti como uma pessoa sensível, ler-te, é constatar ou confirmar tudo isso és uma querida escreves temas importantissimos.
Beijinhos para ti minha querida

GNM disse...

Creio que tem existido uma boa evolução no problema!

Há uns anos atrás ninguém se importava com isso... Dizia-se "entre marido e mulher, ninguém mete a colher"!!!

Hoje em dia é um crime público!
Mesmo é claro que, o facto de ainda ocntinuar a ser algo muito frequente deve preocupar e alertar-nos!

O teu texto é muitíssimo oportuno!

Gosto imenso desta musica! E nesta versão acustica ainda fica mais linda!

Continua a sorrir...

Mitsou disse...

Felicito-te uma vez mais pela escolha dos temas. E pela escrita, claro.
Deixo um beijo de fugida mas cheio de carinho e gratidão pela tua presença sempre amiga, maninha!

Anna^ disse...

Resta-me apenas deixar um beijinho em forma de agradecimento por este post!

:))**

JMTeles da Silva disse...

Ó mocinha fazes o favor de te manifestares!
Quando não apareces não é bom sinal!
Bjokas.

Eva Lima disse...

Pensei que tinhas desaparecido!!!!!


A violência tem muitas formas e nós, enquanto povo, calamos demasiado. A nossa tolerância é demasiado permissiva. Eu, como a Tmara, não sei ficar calada, aos fracos temos q dar voz!

Nilson Barcelli disse...

Beijinhos especiais...

gato_escaldado disse...

Belo e oportuno texto. um abraço solidário.

Luis Silva disse...

Eles vêm aí...
brevemente "a revolta dos pinguins". Não perca!!!

O Micróbio disse...

As crianças devem ir aprendendo desde pequenas a distinguir o que está bem do que está mal, para o que lhes vamos oferecendo formas de conduta a imitar. A nossa aprovação ou reprovação ante uma conduta, manifestá-la-emos mediante sinais positivos ou negativos, conforme o caso.

Em princípio, considera-se que a norma geral aponta para uma atitude positiva, já que todos os seres humanos necessitam de recompensa por parte dos seres mais queridos. Isto não significa que a demonstração de aprovação tenha de ser necessariamente um prémio material.

Em geral, é muito mais gratificante e motivador para uma criança um sorriso ou um simples "estou orgulhosa de ti por..."

Não obstante, nos casos em que se deva reprovar uma conduta reincidente ou especialmente negativa, pode-se - e por vezes deve-se - recorrer ao castigo. Para estes casos, aconselha-se tomar em consideração os seguintes pontos:

- Castigar imediatamente após o acto a reprovar, para que fique bem clara a relação causa-efeito (má conduta-castigo).

- Que o castigo esteja em proporção com a conduta a corrigir, isto é, que não seja desmedido nem ridículo.

- Recordar que, para as crianças pequenas, o melhor castigo é um tabefe a tempo. Para os mais crescidos, privá-los de algo por eles esperado.

- Deixar a repressão - não o castigo - para quando, tanto pais como filhos, estiverem mais serenos. Isto pode suceder um momento após ou no dia seguinte.

- Por último, aplicar sempre uma regra de ouro: senso comum, moderação e calma. Castigar quando a conduta o mereça, não quando se está cansado ou oprimido.

JMTeles da Silva disse...

Ó preguiçosa escreve mais qualquer coisa para o fim de semana, caraças.
Bjokas.

Elise disse...

peço desculpa por só vir agora comentar.

parabéns pelo artigo.

pela minha experiência diria que hoje em dia os pais oscilam entre o estilo parental permissivo (o mais frequente onde raramente há regras) e o estilo autoritário (onde abusam do castigo f+isico).

Bater numa criança não é solução. pelo contrário. ao bater numa criança, estaremos a perpetuar um ciclo de violência.

mas o carlos tem razão nisto:
"- Recordar que, para as crianças pequenas, o melhor castigo é um tabefe a tempo. Para os mais crescidos, privá-los de algo por eles esperado."

quando as crianças são pequenas (2,3 anos) por vezes a tal "sapatada" na altura certa não é de menosprezar. porquê? porque as crianças desta idade, não são capazes de fazer uma abstracção simples. podemos fazer um discurso de 10 minutos sobre o mau comportamento, que elas não o vão entender na totalidade.

há medida que as crianças crescem, o castigo f+isico torna-se inútil e prejudicial. tal como o carlos disse e bem, é preferível remover privilégios e regalias à criança (se quiserem procurem num motor de busca informação sobre "token economy")

mas há pais que não se ficam pela "sapatada". agridem verbalmente, batem, espancam. e esses têm de ser denunciados, para que as crianças sejam protegidas.

e não podemos dissociar a violência doméstica da violência sobre crianças. quando um pai agride uma mãe (ou vice versa) está a ensinar à criança que a violência faz parte de uma relação.

muitos dos agressores, foram eles próprios vítimas de violência e/ou cresceram num ambiente violento. estão assim a perpetuar um ciclo.

abraço, continue o bom trabalho!

já agora sugiro este blog:

http://csaportugal.blogspot.com/

in_cognito_1 disse...

Obrigado por me teres dito o nome da música...quanto ao facto de me ter enganado ao comentar não quer dizer que eu seja mau aluno, apenas estava um pouco enferrujado devido às férias! ;-)

Anónimo disse...

Hoje na Sic o ex-polícia Hernani (?) que tem feito um trabalho notável dizia que na justiça portuguesa só se ralam com os direitos dos arguídos. Soltam-nos e deixam-nos a aterrorizar as vítimas livremente. As vítimas são repetidamente revitimizadas. Mais vale nem fazerem queixa que passarem por tal humilhação. Estar à mercê dos mercenários contratados pelos seus maltratadores nos tribunais.
Há cerca de 10 anos em Bruxelas estavamos a fazer um Livro Branco da Desperversão da Justiça. Que será feito dele?
Estamos a precisar de o estudar bem. Alguém sabe deste Livro Branco?

Depois de ter estudado os links abaixo fiquei a perceber quem são eses seres abjectos que escrevem e estão do lado dos maltratadores.

Esta mulher ( Kate Griggs, esposa do coronel George Griggs) de um político americano, denuncia, fala de vários factos, enumera nomes, tem o diário do marido com vários nomes, etc.
http://www.iwilltryit.com/Kathypart1.htm
e: http://www.iwilltryit.com/Kathypart2.htm

Consulte os links acima antes que os façam desaparecer.

Maria Afonso Sancho disse...

Obrigada Ana e Elise pelas referências.
Apareçam e comentem mais pelo Csaportugal e o Paz, Felicidade e Amor.
Estou muito contente pois temos uma doação de dois terrenos perto de Óbidos para a recolha de fundos para a minha fundação para apoio e cura dos sobreviventes de CSA.
São pequenos mas podemos leiloa-los com outras coisas doadas durante um jantar de benificência.
Ana já linkei para aqui. Podemos trocar links?

Maria Afonso Sancho disse...

olá Ana e Elise
Das nossas trocas de ideias nasceu mais um blog:
http://conversamulheres.blogspot.com//
Apareçam por lá, sff.
um abraço
Maria

Dulcineia disse...

Ana,voltei á sua página e descobri uma das minhas canções preferidas dos anos 80.Luka é linda.

Anónimo disse...

Olá, Ana e Elise!
Falaram-me hoje de um policial que deve ser interessante para ler acerca de
agressão sexual e "multipla personalidade".
Chama-se «Perigosa obsessão» e é de Mary Higgins Clark (acho que se escreve
assim).
Maria Afonso Sancho

Elise disse...

posso roubar a imagem com link do CSA para põr no meu blog? está excelente! parabéns ana!