agosto 03, 2005

Secção: Opinião

Futuros em duplicado
Os miúdos sucedem-se, as crises precedem-nos e nenhum problema será resolvido a fundo ou eliminado. Aprendem eles, e eu a lidar o melhor que lhes é possível com um futuro que jamais integrará determinados objectivos do passado. Presenças a dois. Que eles desejariam ter podido manter por mais que alguns minutos breves que agora lhes é permitido sentir nos momentos em que são trocados de mão. De tempos presentes e que ainda estão por ser nem os imaginavam. Mas adivinharam-nos às cegas e vêm parar-me aos braços, com a inocência reduzida a metade.


Aos pais falta-lhes a aliança, o espaço ocupado no dedo anelar. Notam-se os dias de praia e o vazio deixado pelo aro dourado. E muitas vezes nota-se a falta de vontade para assumir os espaços em branco, o que corresponderia a algo que prescreveria a muitos.


Mas eles preenchem-nos na mesma, quer seja na escuridão ou na raiva contida e em silêncios, quase sem darem por isso. O que sei é que nessas alturas também enfrento olhares de menino grandes que precisam de crescer. Os pais. Perdidos durante algum tempo nos espaços em branco que estão determinados a esconder nem que seja com fita-cola. Os pais. Porque os filhos se tornaram adultos. Passaram a saber o que querem. Mas não podem proferir pareceres em conselhos familiares. São crianças. As crianças são por definição seres expostos a futuros que raríssimas vezes decidirão.

Os pais separam-se e evoluem, sem retrocesso, a sós. Cada vez mais longínquos do que seria a dois, a educação dos filhos. Convencidos, no entanto, que por ajustarem algumas agulhas será possível manter o esboço primitivo.


E os filhos, atafulhados de amor em duplicado e triplicado - e ódios silenciados - transformam o coração em caixas Tupperware, que abrem ou fecham consoante o que páginas autenticadas numa conservatória, ditaram. Alguns caracteres definidos sem mágoas exteriorizadas em voz alta ou apenas pela lei. Hoje, levanta-se a tampa da caixa lilás porque se fica com a mamã. Amanhã, abre-se a caixinha azul porque se está com o papá. As emoções passam a ser às cores. E os restantes familiares acabam noutras tantas caixas de tonalidades diversas. Já não se vai para casa."A minha casa" é demasiado curto. Não explica nada. Está-se em casa da mãe, do pai, dos avós, dos tios ou dos primos. São muitas casas ou nenhuma.

Sem ser como casal, os pais vêem os segundos escoar-se-lhes por entre os dedos. Um sabe do trabalho de casa e o outro da aula de natação. Um diz que se come um gelado e o outro trata da ferida que sara ainda nem se agarrou na mochila para se ir embora. Os miúdos aprendem a viver de mochila às costas. Enfiam nela roupas, valores e mágoas difusas. Aprendem a adaptar-se ao que nunca quiseram. Aprendem a aceitar ou até a rodear as normas que cada pólo gera. Muitas vezes riem, algumas choram. As crianças dos quartos cheios de brinquedos, acumulados em prateleiras, caixas, gavetas e baús, e por fim esquecidos. Os miúdos de sonhos em quartos reeditados, das colecções infindáveis de bonecas, carrinhos e telemóveis. Que vão sabendo de que é feito este novo amor dos pais. Das recompensas pelas horas que passam de mochila às costas de uma casa para a outra. Da vontade de os ver sorrir sem doer.

O facto de não os poder observar nas respectivas casas deixa-me a adivinhar pela metade. Numa hora, confissão, medos, lágrimas ou sorrisos que surgem dos contornos das palavras que consigo resgatar. Com maior ou menor mérito. Conversam longamente comigo, os garotos de vidas, casas e quartos em duplicado. Dos sentimentos ao cubo. E até os pais que já alcançaram algum equilíbrio nas suas próprias vidas, têm que aceitar que estão a amar e a educar filhos com vidas multiplicadas até ao infinito.



Por: Raquel Vasconcelos
in Voz das Beiras, um jornal de Viseu

19 comentários:

Anna^ disse...

Gostei muito,muito deste texto Raquel.
Assisti de perto a algumas vidas de saltimbanco destes miúdos...à confusão de sentimentos que tantas vezes os deixa revoltados e perdidos no meio do nada.
É dificil para os pais também gerir a nova vida e nem sempre o fazem da melhor maneira...Todos precisam de tempo para fazer o "luto".
Parabéns pela ternura com que escreveste.
Fica bem :)

bjokas ":o)

TMara disse...

belíssima e sensível descrição. Bjs e ;)

JMTeles da Silva disse...

Raquelsinha, raios te partam! Antes de publicares coisas destas, avisa-me. Sabes, não sei fazer elogios quando o assunto me toca cá no fundo. É o caso, não só pelo tema mas como pelo modo como o apresentas. Obrigas-me a mudar de lenço, hoje, coisa que só faço às 6ª feiras. Piada à parte.
Um beijo de admiração. Parabéns.

Daniel Aladiah disse...

Querida Ana
É um problema dos nossos dias, mas temos que pensar nas alternativas. Em primeiro lugar a nossa memória é curta. Até há meia dúzia de décadas atrás, em qualquer classe social, os filhos bastardos aconteciam aos milhares, os filho só com mãe também, os órfãos, por causa das guerras, eram sempre imensos, e lá fomos andando... Para além disso, havia a violência a que as crianças assistiam permanentemente entre os progenitores juntos, o que também não era muito saudável para o seu crescimento. Resumindo, agora há divórcios, em que as coisas se organizam em vários pólos de habitação, é verdade, em que o tempo de reparte de mochila às costas, é verdade, mas não é necessariamente pior do que a vida da maior parte de nós em gera~ções anteriores. Nós, em Portugal,´por força do Estado Novo, vivemos numa certa anestesia social, hipócrita, violenta, em que a família junta era o modelo, apesar da violência, do alcoolismo, do incesto, etc.
Resumindo, concordo que o ideal para uma criança é ter pais juntos que se amem e os amem. Mas também sei que são mais os casos em que isso não acontece, o que nos deixa sempre comovidos pelas experiências que vivenciamos.
Um beijo
Daniel

Adryka disse...

Querida Raquel gostei muito do teu post, já cheguei a escrever sobre isto, muitos a falar do mesmo pode ser que dê resultado. Beijinhos

Ricardo Leal disse...

Infelizmente há disto. Penso que as pessoas não têm noção.

Beijinho

AS disse...

Querida Raquel,
Mais uma crónica excelente, onde está bem patente uma realidade tantas vezes esquecida...
Parabéns!!!

Um beijo grande

Anna^ disse...

Bom fds :)

bjokas ":o)

Segredos de veludo disse...

Arrepiei-me perante a nudez real desta crónica. Infelizmente é o prato do dia, os divórcios, as mágoas, os silêncios. Contudo penso e defendo que quando um casal não é feliz junto, logo os filhos também não o são. Por isso mais vale pais separados mas felizes do que o contrário. Um filho nunca pode nem deve ser usado como desculpa para se manter uma relação que nunca resultará.

Å®t_Øf_£övë disse...

Ana,
Adorei ler esta tua crónica.
Sensibilizou-me muito....nem tu imaginas o quanto!!!
Falas de um problema real dos nossos dias de uma forma que chega a ser ternurenta.
Por vezes precisamos de ler estes textos, ou que nos digam o que tu aqui nos escreves para nos apercebermos desta realidade.
Dado que por vezes julgámos que estamos a agir da melhor maneira,e se calhar até estamos da melhor maneira possivel,mas que realmente não é a ideal para as crianças.
Temos que pensar nisto e tentar minorar este problema dos nossos dias,porque fazer com que ele desapareça parece-me impossivel.
Bom fds.
Bjs.

Menina_marota disse...

Há várias formas de ver aquilo que decorre neste mundo: com a crueza de muitos olhares, que passam por cima de tudo e de todos
ou
com a sensibilidade, a coerência e a dignidade, com que escreveste este texto.-

Um olhar pelo mundo, que ninguém ignora, mas que muitos tentam esquecer...

Parabéns por este texto. A ti, que o escreveste. A mim, que o li.

Um abraço sensibilizado

Afrodite disse...

Excelente.


§(~_~)§ beijo da Afrodite

titas disse...

A Afrodite roubou-me o adjectivo ... assim direi que é um artigo muito bom, de qualidade superior, dotado de excelência
(como já nos habituaste)

(~_~)\\ um beijo da Titas

Wakewinha disse...

Espero que os pais desta geração não cometam tantos erros como os pais da minha (já para não falar os da geração anterior)! Espero que os pais de hoje saibam respeitar cada filho na sua individualidade... Espero que mais ninguém tenha de "berrar" como eu o fiz (e ainda faço) para os progenitores saberem ouvir (a parte do respeito ainda não foi alcançada)! =(

Mitsou disse...

Parabéns, Raquel! Está belíssimo o texto, com a qualidade que já conhecemos. Um beijinho muito orgulhoso da tua mana mais velha :)

Friedrich disse...

Bom texto que nos deixa a pensar, se relamente seguimos o caminho mais certo...


Em relação Obituário de um ser, apenas digos que o amanhã é talvez o nosso primeiro sonho!

Um beijo, desculpa o que estiver a mais.

amita disse...

São laços, deslaços
discusões
conflitos em traços
rectos
sem cedência
de parte a parte
Desvios, bifurcações
enlaces de luar
confusões
O amanhã que hoje é
vivência
e que se olvida até
nova chama encontrar
Orgulho, egoísmo?
Novas mentes, talvez
paradas no altruísmo
de não dar
só receber.

Parabéns Raquel, o teu artigo é excelente. Desculpa, sendo a primeira vez que aqui entro, comentar o teu texto com um esboço de poema. As mãos da Titas me trouxe e daqui saio contente por te ler. Uma boa semana e um bjo da Amita//brancoepreto.blogs.sapo.pt

amita disse...

Rectifico: As mãos da Titas me trouxeram... (lol) Bjo

Redoctober disse...

Costumo dizer que a individualidade costuma superar qualquer valor das massas. A associação de o "Le petit Prince (?)" com quaisquer valores auto-proclamados como "you fucking having to, because we say so" não se aplica. Trata-se de algo individual. Boa escolha e decisão!

Ainda bem que o lês.