abril 22, 2005

Porque parte de mim está morta...

Estava sentada à frente do ecrã e já mal o via. Tinha a agenda e o cérebro perfeitamente sincronizados com todos os passos que iria dar no dia seguinte. Levantou-se. Estavam concluídos os últimos detalhes de um casamento há muito anunciado. De tanto imaginado, preparado e conferido começava a senti-lo como se fosse o casamento de uma outra, uma dessas clientes da agência, com que já começara a implicar levemente. E numa fracção de segundos imaginou uma campanha completa para um hipermercado baseada no seu casamento. "Faça a sua Lista de Casamento no... entregamos em casa do noivos a qualquer hora do dia". Riu-se.


Seria um casamento sem padre porque todos consideravam que um casamento católico seria uma mera fantochada. Se era possível igualar a festa casando apenas pelo civil, para quê flores e convidados numa igreja que não frequentava? Por isso não lhes contou que por vezes entrava nas igrejas por onde passava e que se deixava ficar na penumbra, observando o silêncio e a beleza em cada uma delas, tentando conciliar dúvidas e certezas. E ao recordar esses momentos fazia-lhe todo o sentido arrastar uma cauda de tecido delicado, embalada pela sua própria esperança de futuro. E que escolhera por isso mesmo a conservatória com algum cuidado. Sabia de antemão que ao menos naquela sala de ar quase monástico, a conservadora, de sorriso aberto e simpático, iria ler com calma todos os trâmites. Irritava-a a recordação de outros casamentos em que presenciara a celeridade verbal com que o acto era tratado.


Pressentiam-se os sorrisos atrapalhados. Com calma a conservadora foi prosseguindo com o que parecia uma ladainha. Talvez por isso as pessoas cheguem à conclusão de que casar numa igreja ou numa conservatória já não faz realmente diferença, pensou. E a conservadora continuou com as deixas pré-estabelecidas, ajudando aqui ou ali a terminar frases. Os sorrisos continuavam atrapalhados e perdia-se o fio à meada. A conservadora olhou-os - a lenga-lenga principiara a terminar - e comunicou sem paixão - "O casamento é um contrato".
Parou de olhar para os dedos brancos, para a aliança, parou de pensar.
Sala, convidados, noivo desapareciam... Tinha a percepção exacta do que sucedera. Assinara um contrato.
Começou a deixar de se sentir humana. Como se todo a mente e todo o corpo, todos os sentidos iniciassem um processo de adormecimento. Casada. Pagava mais ou menos? Era mais ou menos mulher? Amava mais ou menos?


"O casamento é um contrato" ecoava pela sala do registo. Um contrato que as flores enfeitam, o vestido cobre, o copo de água dilui e que os convidados - até terminar a festa - desmentem. "O casamento é um contrato". Já não queria fotografias. O noivo podia ter faltado. Ou a melhor amiga. Ou ter poupado nos enfeite, nos sorrisos...


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Prendo-me a ti por num pedaço de papel barato. Prendo-me a ti com uma assinatura. Assino com uma caneta Parker. Fotografam-nos e sorrio... Assinei o contrato, negócio fechado. Onde fica o amor? Não sei. Talvez na lua-de-mel, impressa nas fotos para mostrar aos amigos, ou no vestido de noiva que ficou no armário por mandar limpar a seco. Talvez preso no arame farpado da realidade, preso a essa curta frase que alguém teve a coragem de pronunciar, "o casamento é um contrato".
Os casamentos são leasings que se interrompem quando o amor acaba. Tecnologia que vai ficando obsoleta de ano para ano. Até exigirmos mais e mais, até desejarmos o que já não precisaríamos. E pagamos qualquer preço, pagamos qualquer factura em troca de nada. Porque no fim, acabamos a transformar o amor em nada.

20 comentários:

Mitsou disse...

Um belo texto, Raquel. Saído do fundo da alma, e por isso tão verdadeiro. Parabéns pela tua escrita. Um beijinho de fds ou até amanhã :)

carlag disse...

Senti que este texto foi escrito com alma. Com a tua...
Casei também pelo civil, 50 convidados e um céu azul infinito. Também ouvi a dita frase" o casamento é um contrato ". A verdade, é que não pensei nisso, nem penso.
O amor vem, como vai. Mas enquanto ele existir e nos esforçarmos para que ele continue vivo, o resto não é importante.
Desejo, que voltes a amar e que sejas amada de volta .
Simplesmente, que sejas feliz, como tu o quiseres.
Um beijinho

A tragedy in progress disse...

Está tão intenso Ana. Espero que seja só ficção.


*

Mitsou disse...

De facto, a frase está gasta mas continua a aplicar-se: a blogosfera tem destas coisas. Tenho a certeza que há muitas vidas mais risonhas graças a ela. Amizades lindas entre pessoas que nunca se viram mas que se "falam" de coração aberto. Claro que nunca devemos esquecer o mundo lá fora mas talvez este nos ajude a enfrentá-lo de outra maneira. Desde que impere o bom senso, como em tudo na vida. Beijocas, linda!

Raquel V. disse...

Algo que por outras razões já tinha comentado com "a tragedy in progress" é exactamente que por mais que a alma - como diz "carlag" - possa ser a nossa, nem tudo o que eu ou mt gente escreve é a descrição exacta e precisa do que se passou, passa ou passará com a pessoa que "desenha" estas histórias.
Por isso mesmo a pessoa real nunca é totalmente esta. Ou aquela, ou a outra, por quem por vezes nos encantamos - e como eu já o pude sentir na pele... - ou com quem nos identificamos. Estes textos são tantas vezes pontas soltas de anos e anos de vida. Somos nós e não somos. Somos nós e são os que nos rodeiam. É tanta coisa...

Por outro lado é exactamente o que diz a "mitsou"... daqui, do fundo destas "almas" que se moldam e que , sem me contradizer, também são nossas... saiem por vezes aprendizagens e ensinamentos... e sim, amizades em que impera o sorriso que nos ajuda a caminhar, que ajuda a que os nossos sentidos não adormeçam...

Um beijinho sentido a todos...

H. disse...

bolas, q descrição excelente! expões msm bem o pensar e sentir femininos... deu q pensar... *

ChuvaNegra disse...

Espero que assim não seja!!!

IceTeaAddict disse...

Um excelente post que, não querendo repetir o que já disse, me deixou a pensar muito...

Talvez a nossa sociedade seja governada por contratos, e o que lhes está subjacente, qualquer que seja o contrato, são apenas sentimentos... Ou será que é o contrário?! Deixo a questão no ar...

Mitsou disse...

Voltei para, de corrida, te deixar um beijinho e votos de bom feriado :) (ou até amanhã, quiçá)

ChuvaNegra disse...

Grato pela retribuição da visita.

fairy_morgaine disse...

não é segredo para ninguém que me vou casar esta semana... por isso mesmo este texto tocou-me particularmente.
o casamento não é meramente um contrato mas é óbvio que tem uma parte legal inegável.
penso que o casamento é um culminar quase inevitável entre 2 pessoas que se amam profundamente.
um beijo

Raquel V. disse...

Qd quis casar-me, dava voltas à cabeça p entender qual a diferença entre alguém casado oficialmente e não oficialmente. E cheguei à conclusão de q a base é meramente a gestão das finanças... pq se existir amor, realmente n é um papel q o aumenta.

fairy_morgaine, o casamento civil é sem dúvida um contrato, assim preto no branco. Pq aquela assinatura existe para fins legais. Questões monetárias. Por isso mesmo qd as pessoas casam civilmente escolhem também um regime que tem a ver com os seus bens...Por isso o casamento religioso não tem validade caso n casemos civilmente.

Mas desde que nascemos que conhecemos esse outro casamento, o religioso, quer dp continuemos religiosos ou não. E aqui começa a parte de casamento/amor. O conhecimento do q é o amor... ou aquilo q achamos q ele é...

E dp existe a complexidade do ser humano, que dá a contratos um valor forte. Pq a nossa sociedade é governada por regras e do assinar dessas mesmas regras.

O ser humano é um misto de tudo, Ice... ou ele próprio não teria desejado "assinar os seus sentimentos"... imagino eu...


PS: infelizmente é-me muito mais fácil "julgar" agora.

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Como dizia uma amiga minha, um casamento, ainda que apenas civil, com a sua festa e tudo o resto é uma tb forma de ritual, uma passagem... (mais uma vez a nossa mente...) e esta é talvez uma das melhores visões do que é esse momento...
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João Mãos de Tesoura disse...

Posso parecer lamechas mas o amor é individualmente um acto de vontade e pluralmente(qualquer que seja tipo)um jogo de equipa de 2 iguais. Não é para todos, alguns fazem jogo sujo e viciam-no, e requer grande inteligência emocional! O grande problema das relações é acreditarmos que não há passado... o futuro depois ensina-nos que não! O início de uma relação não pode ser leviana, para isso já temos as amizades coloridas... se o for, o futuro é conhecido!

João Mãos de Tesoura disse...

Posso parecer lamechas mas o amor é individualmente um acto de vontade e pluralmente(qualquer que seja tipo)um jogo de equipa de 2 iguais. Não é para todos, alguns fazem jogo sujo e viciam-no, e requer grande inteligência emocional! O grande problema das relações é acreditarmos que não há passado... o futuro depois ensina-nos que não! O início de uma relação não pode ser leviana, para isso já temos as amizades coloridas... se o for, o futuro é conhecido!

Raquel V. disse...

Posso eu parecer antiquada... mas uma amizade colorida é algo que me complica com o sistema, e que por sua vez, qt a mim tb acaba por viciar o jogo na sua globalidade, pq cria uma habituação que imagino, muitas vezes não tenha retorno... mas isto... são outras águas.
Tudo tem passado, e mm q o levemos em conta, qts vezes nos perdemos pelo caminho...
Antes era-me fácil dizer que sabia exactamente o que faria, tinha as certezas todas...
Agora aprendi q apenas podemos dar o melhor de nós (e mm assim falhar) e continuar a tentar mm q por outros caminhos...

Tão só, um pai disse...

Bom dia ...
Olá menina ... como são tão diferentes, a elevação espiritual do matrimónio pela igreja e a insólita secura dos actos notariais.

Olha, ainda tens o direito a um casamento pela igreja, para aquela ocasião e pessoa mesmo muito epeciais.

Tão só, um pai disse...

P.S.

Mas quer num caso, quer no outro, quer em nenhum, o que conta é o "ingrediente" ...

Raquel V. disse...

Eu sei... mas como não cheguei a poder casar pela igreja e sei q o queria ter feito... sentir-me-ia uma mentira...


E sim, o "ingrediente" é que conta...

Tão só, um pai disse...

... haja o amor, e todos os casamentos são abençoados por Deus ... Só que, confirmá-lo na igreja, já é outra coisa ... mas não a condição necessária ou suficiente ...

Anónimo disse...

...haja amor... e aqui já concordo contigo... e quem diria que um ser anónimo também poderia ter alma...? e ser puro... e ser mais a sério e não ser apenas uma mentira...


..não me faças falar se não o desejares... porque então vou ter vontade de fugir...





a.