março 23, 2008

O Dia da Mulher, as Doze Palavras e um Conto

Escrevi o texto que se segue a pensar no Dia da Mulher, sem conseguir fugir às minhas analogias habituais. Sem deixar de pensar nas metamorfoses entre o passado, o presente e o futuro. Ou nas praias de Sintra, esse lugar que eu amo. E sem nunca deixar para trás a esperança. A esperança é a palavra perfeita, permitam-me o à parte.
Toda esta introdução acaba por ser também uma forma de
responder ao Luís do blogue "Port Croft" sobre as 12 palavras que mais gosto - eu diria que gosto ou que repito - porque quando idealizei o texto sabia que estava num dos meus contextos preferidos. Vivo oxigenada pela escrita e sei que muitas vezes retorno à praia - num daqueles finais de tarde quietos - ao mar e às gaivotas que se passeiam aqui e ali na areia molhada pelas ondas que vigiam quem por ali deambula, brinca, corre... O mundo pode dar mil voltas mas ali, naquelas praias, naquela região, volta-me sempre o sorriso.


Baton a condizer com um sorriso fugidio, o nariz arrebitado e a cara salpicada pela chuva miúda que ninguém parece sentir. Um raio de sol passageiro acentua-lhe a tonalidade avelã do olhar e pequenas fagulhas doiradas surgem nas madeixas onduladas que se entrelaçam numa dança com o vento, as pestanas, o nariz e os lábios.

Uma gaivota grita e o som perde-se nas reflexões que lhe serpenteiam no pensamento. O mar revolto intimida os mais arrojados e um quase Outono expulsou o ruído da multidão da praia. Só alguns pontos coloridos se atrevem a deslizar, lá longe, onde o azul se enleia num cinza triste mas belo.

O presente nunca foi tão presente como hoje, enquanto descia pela escarpa, até chegar ao muro empedrado e baixo que acomoda a praia num rectângulo frágil... Nunca se sabe se o muro vai estar ali no dia seguinte, no mês seguinte, no ano seguinte.

Sentada na pedra fria, alheada da frialdade da pedra vestida por areia húmida, deixa o sorriso calar-se. Sabe que até as milésimas de segundo sofreram metamorfoses, e agora algumas vezes emudece sem saber porquê. “Sem saber porquê” é algo novo. A mão pousada no muro sente, por fim, como este está frio e ela repara que no vento baila o grito de uma gaivota. Hoje foi o primeiro dia em que se escapuliu por uma escarpa abaixo para meditar, num isolamento premeditado porque foi também o primeiro dia do final do presente e o começo de muitos “sem saber porquê”.

Muitos Outonos depois desenhará, distraidamente, no mesmo muro baixo, linhas invisíveis, enquanto recordará o dia em que entreviu os seus “sem saber porquê”. E escutará o grito de uma outra gaivota. O muro, esse, foi reconstruído mil vezes. Tal como ela. Mas isso não terá a mínima importância…

março 19, 2008

Olho para a minha mão
e ela não seria minha
se não tivesses sido meu Pai

março 13, 2008

Anotações alegres em dias de chuva...

O João Silas no Dia da Mulher, fez referência ao aniversário do "Páginas" o que teve um sabor muito agradável.

Entretanto soube pelo Technorati (tinha o vício de me inscrever numa série de coisas e com esta tentativa de ser mais assídua por aqui, o dito vício voltou):

...que existe um Blogue de Aniversários que é “para quem nunca se lembra das datas mais importantes”. Será que já me tinha inscrito?

...que o Miguel e a família, do blogue A Minha Matilde & Cª gostaram do meu postal de Bom Ano Novo! (dizia eu assídua…) Obrigada!

...que o blogue Porto Croft me desafiou para que “todos possam ficar a saber quais as 12 palavras de que mais gosto”. Luís, o próximo post é para te responder.

fevereiro 12, 2008

Que bom!



O Eremita, do blogue EREMITÉRIO - que vive "segundo o princípio de que as pessoas - em abstracto - são bem intencionadas. Ou seja: nascemos bons. Até provas em contrário." tem um blogue em que se respira tranquilidade - atribuiu-me um senhor prémio “É um blog muito bom sim senhor”, :).
  • Este prémio deve ser atribuído aos blogues que consideramos bons, entendendo-se como bom os que visitamos com regularidade e comentamos;
  • Ao recebermos o “É um blog muito bom sim senhor”, devemos escrever um post que inclua quem nos atribuiu o prémio com um link para o respectivo blog; tag do prémio; regras; e a indicação de 7 blogs que consideramos bons e a quem fazemos a atribuição; colocar em destaque a tag do prémio no blogue.

Sete Mares; Policromia;
Humores; Branco e Preto;
Extranumerário; Poesia Portuguesa;
Estranhos dias e Corpo do delito

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nota: Cada blogue que possuo tem a sua forma intrínseca de existir, e é com base na do Páginas que a minha escolha foi feita. Como estive muito tempo afastada tenho que me reportar a algum tempo atrás e tendo espreitado cada blogue apontado vejo que não mudaram a qualidade. Alguns bloggers têm mais que um blogue e a escolha de um na verdade é a escolha do conjunto dos seus blogues. Os blogues também são os seus bloggers, isso também contou. Há mais... muitos mais... mas as regras são estas.

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Passatempo/desafio


Aproveito o facto de o Eremita também me ter lançado o seguinte desafio: escrever 6 coisas peculiares (próprias, privadas, características) a meu respeito, responder e o colocar aos bloggers nomeados em “É um blog muito bom sim senhor”.

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Vamos lá ver... sou impulsiva [em quase tudo], sonhadora [demasiado, porque para mim há sempre o hoje e o amanhã como o eram há vinte anos atrás], digo o que penso e sinto, dentro dos limites da delicadeza [o que por vezes me traz dissabores porque algumas pessoas preferem hipocrisia], sou pessimista por natureza [mas, espanto dos espantos, sempre com um travo de Esperança no amanhã], detesto o Verão [sua-se horrores e as dores de cabeça voltam], poucas pessoas se mantêm um mistério para mim desde que veja o seu olhar.

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Agora meus amigos... como dito atrás, passo o testemunho a: Sete Mares; Policromia; Humores; Branco e Preto; Extranumerário; Poesia Portuguesa; Estranhos dias e Corpo do delito

fevereiro 08, 2008

Eu, a Rede TubarãoEsquilo e o meu blogue novo

Informática & Chocolates...





Informática & chocolates é oficialmente um blogue da Rede TubarãoEsquilo, “uma alternativa cada vez mais consistente para acompanhar a actualidade. Os seus 40 blogues, índices da blogosfera, sites de social bookmarking e escolhas do cidadão (o “citizen journalism”) cobrem a actualidade nacional de uma forma moderna e editorialmente descomprometida”.
Sendo este um projecto que há muito considero de enorme interesse, estou claramente satisfeita. Até porque sempre fui de opinião que ao existirem blogues que, em diversas áreas, saíam do mero esquema “diário de menina/menino”, a blogosfera acabaria por dar um passo em frente. E um passo em frente com proporções gigantes.

Quem é que está à frente de um computador que não tenha um chocolate, um doce, uma bebida... qualquer coisa. Sobretudo quem não é humano e não se zanga de súbito com uma paragem forçada do computador? Ou sorri quando tudo correu sobre rodas? É esta a temática do blogue, nós e as nossas máquinas das quais passámos a depender! Nós os que percebemos qualquer coisinha mas ainda nos "falta um bocadinho assim" para sermos génios. ;)

janeiro 25, 2008

Não resisti... por vezes temos que ser crianças...
não tem nada a ver com este blogue e o post que se irá seguir... e depois?
vão existir mudanças, coisas sérias e coisas menos sérias...
E é um docinho... um docinho para os amigos que por aqui passam ;)

janeiro 05, 2008

















Mais um ano que passou célere,
por vezes com aquele sabor de amêndoa de chocolate
que quando trincada o amargo se mistura com o doce,
porque nem sempre o pressentimos... e qual menino traquinas,
o destino nos vai pregando partidas.

Nasceram crianças. Chorámos e rimos.

Virámos a cara ao telejornal, deitámos no lixo os erros.

Pelos caminhos colhemos flores e vimos mar e vimos neve
e quisemos salvar das trevas das vestes carbonizadas,
os nossos bosque encantados.

Chegámos a casa mais sábios, vivos...
porque mesmo na invasão dos dias não fizemos do alcatrão assassino,
e sim, dos caminhos aprendizagem.

O reflexo que vemos no espelho tem mais estradas delineadas...

Mas com o tempo que passou,
soubemos mais e mais da metamorfose da vida
e da rapidez dos segundos,
e do que tencionamos que não fique por concluir!

novembro 12, 2007


A TMara deixou-me feliz...
num dos seus blogues,
Estranhos Dias e Corpo do Delito,
indicou-me para concorrer
ao prémio CANETA DE OURO
iniciativa de Gritos Verticais
com um "poema"
do Avoid Ch(K)aos

Dúvida
O brilho ameaçador das tuas pupilas trespassa-me.
meus olhos não interferem com a tua violência.
Sou a criança que observa o mundo que desconhece.
A pergunta permanece… Dar-me-ás tempo para ter a percepção do que enfrento



PS: este pequeno "poema" é dedicado a todas as crianças a que o mundo roubou
e destruiu a inocência antes de terem tempo de saber que o que as rodeia pode ser mortífero, literalmente ou não.


Era-me pedido que indicasse cinco blogues. Não é fácil até porque quem percorrer o lado direito do blogue vai descobrir vários links de gente que muito bem lida com as palavras, sabendo eu que ainda faltam lá outros tantos...
Mas o que é prometido é devido:
Sete Mares; Gato na Paisagem; Humores; Branco e Preto; Extranumerário

outubro 21, 2007

Os textos do "Páginas" e outros, organizados
com as novas "tags", para os mais curiosos...
Não, não é um adeus ao "Páginas",
é apenas o meu "curriculum" na área da escrita.
Um curriculum de quem procura, aos 39 anos "algo" que não seja na
Publicidade, que a expulsou pela idade que tem.
Aos trinta reparamos nos anúncios que nos impedem de concorrer
depois dessa idade... mas estamos demasiado distraídos
para sentir na mente e na pele a verdade...

junho 27, 2007

Tenho olhado para o "Páginas" e vou-me perguntando se devo colocar-lhe um fim, ou, tal como de início... dar-lhe um tempo e aceitar que não se pode fazer tudo o que se quer, em determinados momentos.
Por vezes surge um "doce" e a permanência do "Páginas" faz sentido. Por agora é um pequeno jornal de palavras soltas, pequenos acontecimentos, as "velhas crónicas" que vão surgindo.. Escrevo eu... falam outros... Nisto de "blogar" não há como fugir às regras das audiências. A falta de tempo para comentar outros blogues deixa-nos "a casa" vazia porque também aqui existem as mesmas regras que se aplicam à publicidade.
Só que não quero comentar "porque sim"... quero comentar porque tive um espaço de tempo em que isso me agradou, me foi possível...


Entretanto o blogue "XXL - Poesia em Luta" conversou um pouco comigo, quem desejar espreitar um pouco da nossa conversa é só ir e lê-la*.

*(A página foi alterada)

Um agradecimento especial a "UM POETA, UM OLHAR, UMA VIDA..."

maio 12, 2007



no Audioblog Estúdio da Raposa,
um espaço da Truca de Luís Gaspar,
a quem agradeço a gentileza de me incluir no "Lugar aos Outros".

abril 11, 2007

{pensamentos soltos}
Observo o mar que investe
fazendo naufragar areia e rocha.
Conto os segundos entre cada investida,
ansiando por salvar pequenas conchas cheias de nada.
Nas minhas mãos guardo o pôr-do-sol
como se este fosse um suspiro.
Respiro.
E atiro as conchas para uma sacola
que é a minha vida misturada à pressa
com os últimos raios de sol
que o horizonte não conseguiu devorar.

março 20, 2007

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Plágio de mim...

Tenho tanta poesia {barata} dentro de mim.
Não imaginas quanta. Eu própria não me entendo, não me compreendo.
Falo de areia, de mar, de vento e estrada e de luzes cintilantes em avenidas largas... Somente porque fazem parte de mim. Jamais me magoaram ou sequer pensaram esmagar-me, dilacerar-me...
Sonho que me passeio lá longe, num lugar cheio de luminosidade, amando pelas palavras o que não me foi possível amar de outras formas... Dá-me... Dá-me a tua mão e prova-me que és igual a mim.

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outubro 19, 2006

"Sempre se refugiou em analogias para assimilar o traçado invisível da vida - como em criança entendeu, através dos infinitos numéricos, que o seu querido céu de brilhos vários também não tinha fim."



Analogias virtuais...

Sente-se só. De pé, entre as paredes pontilhadas de fragmentos de vida - fotografias, recortes de revista, post-its e maquetas - repara no piscar das minúsculas luzes do modem que lhe mostram que este iniciou o seu mutismo. Não poderá durante demasiado tempo, sabe, caminhar pelo corredor - é assim que ela imagina o mundo virtual, um corredor por onde todos se passeiam, falando-se ou não, numa multidão de vozes quase sempre sem som e tantas vezes anónimas, ou quem sabe, fazer apenas fazer uma pesquisa, espreitar um blog, uma notícia...

Sente medo. Observa o velho Mac - um computador que a que o tempo roubou pressas mas que ainda ostenta orgulhosamente o logo colorido da maçã - mantém-se silencioso. Acorda-o com um toque suave no rato. Não quer ficar sozinha... Por toda a casa encontrou vestígios recentes de vazio. Um livro, um cinzeiro ou uma moldura que deixou o seu traçado no pó fino que permanece nos móveis. Cada objecto transformou-se numa peça de partilha, parte de um puzzle que nunca irá completar. Achava-se mais forte, mas o medo surgiu mascarado de noite e de sombras. Já não pode refugiar-se no corredor virtual.

Pára no tempo. Leu em criança demasiados contos de fadas, e já adulta, coleccionou do mundo real apenas o que lhe interessou. Recusou-se a catalogar o cinzento do mundo e remeteu-o desordenadamente para caixas de cartão, que mantém num sótão reservado para o que considera proibido. E um dia, abruptamente, começou também a riscar o futuro - um futuro imaginado, que em tempos se entretinha a desenhar delicadamente, como se estivesse na primeira classe a treinar o alfabeto - riscou-o com violência, até rasgar a folha. Mas riscou-o já demasiado autêntico.

Fixa o ecrã. Na vida não se fazem rascunhos, não há "maça, z", nem "control, z". Não se fazem updates à felicidade ou desfragmentações ao sofrimento. Hipnotizada pelos pensamentos, projecta mentalmente circunferências, vectores sem alma ou defeito que refaz na perfeição, como se fosse possível a perfeição se imitada por uma máquina. É fácil gerir a nossa mente perante um documento em branco, que em nada nos questiona. Esse vazio de cada novo documento parece despertar-nos a capacidade de recomeçar. Alguns toques no teclado e no ecrã os círculos adquirem, aleatoriamente, tonalidades e transparências suaves.

Relembra. Há um ano atrás, o primeiro disco rígido do computador morreu. Alguns gigas de tudo e de nada desapareceram. Durante dias catalogou o que se encontrava preso no interior da peça fria e inacessível de hardware, cada fragmento de informação que nunca mais seria imagem, som ou vector. Perante a inevitável perda de toda a informação, refez os trabalhos a decorrer à data do incidente e arquivou os restantes - aqueles que mais sorrisos tinham feito surgir - na área que o cérebro dedica ao não esquecimento.

Sorri. Sempre se refugiou em analogias para assimilar o traçado invisível da vida - como em criança entendeu, através dos infinitos numéricos, que o seu querido céu de brilhos vários também não tinha fim. É agora uma máquina - um aglomerado de plásticos e hardware sem vida - que a ensina. O passado permanece, nunca desaparece no vazio. Transforma-se em fragmentos de memória.

Respira fundo. Retira finalmente todas as ligações ao modem.

agosto 14, 2006

Apetece-me fazer um interregno...
é 'só' para dizer que

agosto 03, 2006

E...
Se te disser que de um trago te amo
E abandono o meu mundozinho prosaico?

E a gramagem ou a dimensão são irrelevantes.
E em nada me interessa se justificas à esquerda,
à direita, ou se entras ao centro.
Se te trajaria em Conqueror ou Couchet
E que até desprezo o marketing a rigor
{tão sem traços de pudor}

E...
Se te disser que
esqueci nomes ambíguos,
e te conheço as mil faces.
E que te li todas a expressões,
E que algumas me fizeram emudecer, encantar...
E outras me trouxeram em lágrimas

encharcadas em ADN.

E...
Se te disser que
te desnudei {sem pejo algum}
Sei que te vais rir desta minha inocência...
{sim... eu sei...}
É que se foi amor à primeira vista,
{porque foi...}
amo-te agora mais intensamente ainda.

Vi-te escrito a mil mãos
E a mil mãos declamado.
{e digo-te...}
Entoado pela Fénix humana
Que bem esgrimiste palavras!

{E se te disser que...}
Sei que em cada uma das tuas laudas existe PAIXÃO.

junho 27, 2006

Caixotes e caixotes por decifrar...

O conjunto de chá da loja do Gato Preto talvez esteja em cacos... Não os tachos, que são inquebráveis e nem uma amolgadela lhes embaraça o brilho do aço - pensei que os querias mas sei que os deixaste.
Livros por reler... Memórias enfiadas à pressa entre esferovite e pedaços de jornal para acordarem intactas quando o x-acto, os olhos, as mãos e a coragem desselassem tudo...

O cheiro do mar persegue-me a cada caixote que quero abrir, como incenso que se incendeia sem permissão. Deixei o pó acumular-se. O perfume do mar está presente em todas as linhas do meu destino e o que seria de mim, a pressenti-lo, presa na teia em que me enredei...
Poderia gritar. Mas não faria sentido desperdiçar palavras no vazio que outrora foi uma multidão, nem em parágrafos violentos que ficariam sem resposta.

Certamente que "nós",
deixámos muito antes
de o ser. Pertenceste
sempre a um conjunto
de factos óbvios.
Barro que o artista usou
para uma obra há muito
delineada, consumada.


Hoje nem sequer te recrimino. Em contrapartida também não o faço comigo mesma. Poderia justificar-me, mas creio que estamos em pé de igualdade. Apenas te foi mais fácil censurar a minha desistência tão evidente. Porque a tua foi gradual e imperceptível... Sem nome nem apelido. Não foi? Sempre conheceste todos os atalhos de cor enquanto eu pairava pelo desconhecido. E como vagueei... Desejo? Não sei... Anseio? É-me indiferente. Mal me quer, bem me quer, mal me quer...

Certamente que "nós", deixámos muito antes de o ser. Pertenceste sempre a um conjunto de factos óbvios. Barro que o artista usou para uma obra há muito delineada, consumada. Parte de um todo, invisível para alguns, é certo, mas apreciado por muitos.

Eu sentia-me só, ínfima... Fragmento desse mesmo barro, escorreguei das mãos do artista e cai com um baque. Um pontapé inesperado obrigou-me a rodopiar pelos ladrilhos argilosos qual pião. A indolência interveio. Quedei-me num canto, entre a poeira dos dias que acontecem, aguardando que o artista reparasse em mim... e me transformasse em cabelos soltos ao vento - esse vento que se desprende do desconhecido - antes que o tempo que fugia me encontrasse já pedra. E o tempo passou...

Sou e sempre fui paciente...


Mas os caixotes têm que ser decifrados! E o artista deverá reparar em mim! Grão de areia nestas páginas ambíguas! Bem me quero...
E grito! Que interessa se aparento estar emudecida! Grito!
E sopra uma brisa e o artista desvenda-me e abro caixotes e já é de manhã e a claridade esbate-se serenamente nos cabelos e no vento que o artista modela.

O oceano aguarda-me...




(imagem Getty Images)

junho 20, 2006


Trecho de um texto de "Le secret des Papillons", a outra faceta do "Páginas".

maio 20, 2006



"pdi",

a "puta da idade" ou a ironia para a inevitável crise dos trinta quando plenos de dúvidas existenciais sobre o que parecia ficar por satisfazer, esta vestia tão bem as culpas de tudo. Até cada pequena ruga era registada e guardada num ficheiro com extensão "pdi". Sentíamo-nos protegidos por uma saudável cortina de insanidade juvenil. Com rigor dir-se-ia que nada nos atingia a não ser a impaciência própria da juventude, com aquelas dúvidas que assomam vagamente os planos traçados, e quem sabe, a noção de umas quantas semi-finais inconclusivas.
Entendo agora
* que não era nada disso. A "puta da idade" é olhar em redor e vermo-nos tal como também somos, esboços falíveis de vidas labirínticas.
Éramos tão jovens... Possuíamos portões de madeira maciça - fechados a sete chaves - e protegíamo-nos da passagem do tempo, das mortes emocionais dos incógnitos, das agonias que empurram tantos e tantos para as esquinas que habitam as sombras... Sombras que desconhecíamos.
Era demasiado fácil. E enxergamos hoje - sem fuga - que as portadas se desmoronam com inexaurível exactidão. Fomos delapidando o tempo em corredores de imaginários castelos de areia, e agora, vida e morte, apresentam-se-nos à porta e ensinam-nos que a tal "puta da idade" não é o que julgávamos. Não... não é uma brincadeira de miúdos imortais...

E eu? Que pensava? Enfrentava o meu reflexo no espelho e era só eu, sem rugas, só revolta pessoal. Era dona e senhora de uma legislação própria sobre a angústia.
E abruptamente a revolta, a angústia e o destino dos outros emergiu arquejante, numa fúria assassina e arrasou as marés domadas da minha existência, invadiu-me e defronto-os desprevenida. Com medo. Medo de encarar quem quer que se reveja no reflexo das lágrimas que não consigo estancar. Porque dói, porque o sofrimento
dos outros se tornou real. Porque não os quero a sucumbir perante mim, quero-os em concursos idiotas a ganhar felicidade a rodos.

Envelhecer seria tão simples se a passagem do tempo se fizesse apenas para nós.

E quero gritar para não colherem flores, para apenas sentirem a sua fragrância e as tingirem matizes inéditos, nessa imagem aparentemente banal sobre fruir os momentos belos que nos são dados, a meio de jornadas por encerrar.



*Poderia não explicar mas desta vez creio que o farei. Alguns de nós passamos parte da nossa vida intocados, como se "sofrimento" se lesse apenas em livros ou em filmes melodramáticos. Ou vemos os telejornais e já estamos anestesiados... Até que um dia a realidade nos bate à porta. Chamei-lhe envelhecimento, mas não é necessário que se tenha esta ou aquela idade. Pode ser agora, amanhã, anteontem... E por vezes não é um amigo ou um familiar ou um conhecido... são todos ao mesmo tempo. A vida prega-nos partidas porque lhas está a pregar a eles. Por vezes, egoisticamente, desejávamos colar os cacos e reconstruir a redoma em que nos escudáramos. Uma redoma que não suportou e estalou. Observamos o horizonte, a vida - a nossa e a deles - com os cacos nas mãos, apertamo-los até que sangremos. E sangramos lágrimas também porque há destinos que não podemos mudar e outros que não desejam ser mudados.

abril 25, 2006

Hoje

Não desejo recordar o que não vivi, disso nada sei. E o que me contam encaixa unicamente nos livros da História de Portugal, nas épocas da inquisição, nos tempos da ignorância.
Não me contem sobre o ontem, digam-me o que vão fazer amanhã porque é disso que eu quero saber.
Expliquem-me porque sou velho aos trinta, não me digam mentiras, digam-me a verdade. Expliquem-me porque me pagam parte do ordenado "por fora", não me digam que fui eu que aceitei, porque eu tinha uma casa para pagar. Expliquem-me porque "vi" assinar falsos contratos, não me digam que o "não" se impunha, porque perante ameaça quase todos sucumbem. Não me digam que não denunciei, porque muitos tinham filhos para alimentar, casas para pagar, vidas a começar!


Digam-me se apenas querem recordar, o que estamos a festejar.
O escrever sem medo?
Pois vos digo que tenho medo!

abril 19, 2006


Não me é nada difícil lembrar como a Titas entrou na minha vida, recordo-me "dos porquês, dos comos e dos quandos". Recordo-me dos e-mails e dos comentários, de sorrir, de ficar surpreendida com a facilidade com que a Titas começara a permanecer na minha vida! Sim, porque a Titas entra-nos pelo coração adentro e já não nos apetece deixá-la fugir!

Já me ri perdidamente com ela e também já chorei no seu ombro. E são pessoas como a Titas, que tenho conhecido neste mundo aparentemente etéreo, que o tornam sólido.

Podia dizer aqui em vários parágrafos o quanto a Titas é importante para muita gente...
Mas quero mesmo é dizer o quanto
TU e as tuas lutas, são importantes para mim!

abril 04, 2006

Omissão

Nunca gostei de perder nem a tostões, e não tenho jeito para o logro. Assim decidi que nunca jogaria. Nem em jogos de azar, nem na vida.

Tornei-me antes num observador nato. Coleccionei atitudes, analisei-as ao milímetro, mas mantive-me sempre à margem. Se me dedicasse ao xadrez anteciparia todos os movimentos do velho Kasparov.

Ser-se analítico, permite-nos perspectivas curiosas e intuitivamente reconhecemos o carácter, mais ou menos predador, de cada peão no tabuleiro da vida.

Muitos dirão que nunca ir a jogo nesta sociedade é uma lacuna, porque com a passagem dos anos conhecemos lances suficientes que nos permitem um xeque-mate eficaz. Ou seja, atingir o topo, ilesos.

Se os fins invalidam os meios? Essa já é outra questão.

Como os jogadores arrastam irremediavelmente alguém pelo caminho, com o tempo intensificou-se-me o instinto. Mas surgiu a náusea.

Os jogadores atravessam a multidão crendo-se incorpóreos, trespassando mortais que - pensam - não sentirão o seu embate. E embora me tenha mantido afastado, na minha mente evidencia-se o que observei, pressenti e muitas vezes soube que sucederia. E pondero as denúncias que nunca fiz...

Sim, admito, transformei-me numa omissão. Vi os que iniciaram na partida e não atingiram a chegada. Desprezei o que aconteceria aos que se cruzaram pelos atalhos dos que jogam por pura sobrevivência. Virei a face. Não jogo, não faço acusações e sei que a minha omissão custou vidas. Mas não as contabilizo, tal como não conto jogadas. Só observo.

Para as náuseas? Tomo um comprimidito qualquer que alguém me receitou.