abril 21, 2008


"Espero que gostem, se deliciem com o desafio (...) de construir textos tão diversos, E POR ISSO MESMO TÃO RICOS, partindo das mesmas 12 palavras e do imaginário e questões mais sensíveis a cada uma/um.",
diz-nos o Eremit@ do Eremitério.
As palavras eram: AMORTECIDO; AVASSALADOR; CÉU; COMUNGAR; DISTANCIAMENTO; AZUL; ERODIDO.
Este foi o primeiro jogo e por lá continuam a renovar-se as palavras.



Eu e o menino

E dera-se uma implosão mas ninguém poderia escutá-la ou percebê-la. Eu saía de uma tempestade de décadas e pouco parecia ter sobrevivido intacto. O que fora fusão transformara-se em fragmentos flutuando dispersos. Pensamentos, membros, sonhos, alma, coração, neurónios, artérias, cabelos e esperanças, baloiçavam num céu inicialmente de um azul glaciar. E este não se atrevia a murmurar e o ruído do vento também fugira como uma criança assustada não querendo dar respostas.

E foi então que a minha alma caiu no mar imenso e frio, amortecida por um ondular suave, repetitivo. E, para meu espanto, todos os fragmentos do meu eu rodopiaram até se encontrarem com o oceano, onde as ondas tentavam cumprir o seu futuro, comungar de mansinho com a areia húmida.
Mas ainda me sentia erodido. Havia um distanciamento avassalador entre a minha alma e tudo que fazia com que eu fosse realmente eu. Por isso, assim que atingia a areia disfarçava-me de pequenas conchas.
E depois fiz-me cantilena e um menino foi irresistivelmente atraído para a beira-mar pela melodia suave que enfrentava o emudecimento do vento. Conchas e conchas opalinas clamavam por ele. Sem ele, eu não seria nada. Precisava dele como a embarcação precisa do farol nas noites sem luar. Precisava das suas mãos pequenas para que estas me recolhessem e depois ao brincar com a areia, a enfeitassem de mim.
No final da tarde o menino acabara um imponente castelo de areia, salpicado por conchas. Levantou-se. E o vento ouviu-se de novo e desceu até ao castelo de areia. E das conchas ressurgi.
E antes de voltar a caminhar, quedei-me a observar um ponto longínquo. Um menino de mãos dadas aos seus pais, dizendo-me adeus.

6 comentários:

Steve S. disse...

Gostei muito de ler este texto. Peço perdão, á muito que já não passava por aqui, tambem, porque perdi os meus favoritos e este era uns dos blogs. Fico feliz por verificar que continua a ser actualizado.
Tudo a correr bem!!

Paulo Tomás Neves disse...

delicioso, como sempre... embalados pelo texto conseguimos até escutar o vagido do mar
obrigado
:-)

A.Mello-Alter disse...

Bonito.
É muito bom ver-te em forma, menina.
Um beijão.

Nilson Barcelli disse...

Escusado será dizer que este teu texto é soberbo.
Gostei muito.

Bfs, beijinhos.

TMara disse...

e o teu texto do 2º jogo é muito bom.
Bjocas menina
Luz e paz em teu caminhar e ao teu redor

JMTeles da Silva disse...

Aqui estou a visitar-te, moça. Falaremos, sobre o teu escrito, em privado.
Da parte gráfica só posso dizer: Bravo!
Beijokas