junho 12, 2005

Amo-te profundamente...

Procuro-te no tempo.
Detesto mortes rápidas.
Preciso de renunciar lentamente ao mundo que me rodeia.
Despedir-me de ti. Acompanhar-te no meu velório.
Acompanhar-te ao meu enterro.

Ficar ombro a ombro com a tua dor.
Só assim tenho a certeza de proferir
Tudo que em vida me neguei confessar-te.

Reparo nas tuas lágrimas aprisionadas por entre as pestanas.
Ficam mais belas ainda, assim.
Tenho a certeza que me observas através dessas gotículas de dor.
Prende-se-me a voz por te dizer adeus. É por isso que os mortos não falam...
Tu... Tu terás saudades minhas.
E eu? Eu sentirei saudades de demasiados.

Entendes?

Entendes porque não consigo falar?
Porque nem um sussurro me sai para te acalmar a dor?
A minha também é imensa.
Vivi o passado, e neste momento, sinto um desejo ardente de futuros.

Vejo a terra cair sobre mim.
Não está escuro... Sinto que as minhas lágrimas se prendem nas tuas.
Muito de mim está em ti, meu filho, e muito de ti estará em mim...
Quando fores apenas um sopro da minha passagem por este mundo.

E embora nunca te tenha gerado, amo-te profundamente.

@ 1/7/2004 (memórias de posts que quem sabe, nunca leram...)

23 comentários:

AS disse...

Raquel.. este teu texto despertou-me sensações bem diversas.. se por um lado me levou a um horizonte próximo onde a renúncia, o desalento, a fatalidade se revelam bem patentes, por outro ( talvez o meis surpreendente), alimenta um desejo ardente de futuros, um confessado amor por algo que ainda surge na irrealidade de uma certeza...

Em qualquer dos casos, sublinho a profundidade de pensamento e os contornos sentimentais, aparentemente contraditórios, de que este belo texto se reveste.

Um beijo

Margarida Atheling disse...

Dispenso-me de tentar compreender o texto em si mesmo. É bonito, e isso basta-me!

O sentimento, esse, percebo-o! Acho até que o conheço!

Beijinhos!

carlag disse...

Imensamente profundo este texto.
E senti-o, quando o desejo começou a querer-se ouvir no meu peito...
Quando soube que tinha chegado a altura, de ser mãe.**

TMara disse...

um belo eprofundo olhar do outro lado para este. Bj

João Scottex disse...

Lindo! Tb não custa antecipar e prever, e é tão bom.

RC disse...

A escrita de cada um chega aos outros com formas diferentes de como nós a desenhamos.

Se não tivesse sentido nada, não tinha comentado.

Beijinhos

bertus disse...

Encontro
de desencontros
de um futuro passado
do presente aqui ao lado.
que não há pontos
sem ponto...

...parágrafo.


NOTA de RODAPÉ:
O parágrafo não é nem nunca foi um sinal cabalístico. Não é pelo parágrafo que a "terra nos cairá em cima". Apenas um interregno; o descanso do eu, que a vida continua...Digo eu, que gosto imenso de respirar e detesto parágrafos.

Eva Lima disse...

Raquel,
gostei mto deste texto. Já o tinha lido antes mas, com esta composição, despertou-me mais.

bjinhos

Menina_marota disse...

Sentimentos controversos foram despertados em mim, neste texto tão profundamente sentido.

è a tua alma a nu, que aqui sinto.

Um abraço terno

RC disse...

"Se quer dizer que as palavras te fizeram sentir algo ainda bem :)"

Embora enigmático, quis dizer exactamente isso. Mas quis dizer mais. Quis dizer que, mesmo que sinta algo diferente do que tu sentiste quando o escreveste e não capte o teu eu, mesmo que passe ao lado do teu sentir, mesmo que não esteja em ti, as tuas palavras me fizeram sentir algo, mesmo que eu não saiba exactamente o quê.

Diogo Alvim disse...

Acho que numa certa altura do princípio da adolescência, todos nós de vez em quando pensávamos como seria quando morressemos, quem ia chorar por nós e como se iam arrepender de não nos terem compreendido (todos somos incompreendidos na adolescência).
Hoje em dia, prefiro pensar que não quero deixar de dizer que gosto muito a quem quer que seja que eu goste muito antes de morrer.
Porque, nesta espera pela morte que se chama vida, devemos aproveitar ao máximo cada minuto que nos é concedido de esperarmos um bocadinho mais.

H. disse...

belíssimo poema Raquel...

sabes, ando a ler o 'Fazes-me Falta' da Inês Pedrosa, e a tua escrita recorda-me algumas vezes a dela... :)

concha disse...

Gostei tanto Raquel.
Que texto tão completo de emoções.
Beijinhos para ti

Mitsou disse...

Gostei muito. Um sentir muito profundo, o teu. E há muita beleza na forma como o descreves, linda. Beijinhos ternos e fico à espera do próximo, actual ou do baú :)

Angela disse...

Obrigada por estas palavras. Hoje, que ficamos mais pobres, com a perda do Poeta.
E gostei tanto destas tuas páginas, que as adicionei.

Tão só, um pai disse...

Não sei o que te dizer. Fiquei triste, por te teres sentido e vivido assim. E feliz, por mim, por me sentir com sorte e realizado. Beijinho de bom dia.

x disse...

Olá, Raquel.

Se bem compreendi, este texto retrata o teu desejo, ainda não concretizado, de gerar vida. Será que estou enganada?

Como te compreendo! Se assim é, estou contigo nesta luta pela vida.

Um beijinho!

amie disse...

acho sempre que há esperança quando se ama assim...

Daniel Aladiah disse...

Querida Ana Raquel
Um texto a várias gerações? Aparece de novo por razões especiais? Bonito texto, pondo de lado´os significados...
Um beijo
Daniel

agua_quente disse...

Que texto, Raquel! Tão pleno de significado, tão denso. E tão emotivo. Ando a descobrir a tua escrita com um prazer sempre novo.
Beijos

João Scottex disse...

Pronto! Já está tudo pronto para receber as inscrições de todos, que após confirmação, ficarão disponíveis no blog.
Inscrevam-se vai ser divertido!
Beijos e Abraços para todos, do Algarve para o Mundo!...

PS-Se puderem ajudem na divulgação.

http://encontroblogalgarve.blogspot.com/

Mitsou disse...

Beijinhos de boa noite, linda. Amanhã a ver se reatamos a conversa, ok? :)****

Lyra disse...

entendes-me então :-) sei que sim. Pelo que li aqui no teu blog. Um tempão estive eu aqui :-)
Entendes sim! Um beijo Raquel. De uma alma para outra.